Iniciei-me na carreira de mãe e professora quase que conjuntamente.Acreditava poder trabalhar menos tempo do que como uma secretária bilíngue que era. Sonhava poder, assim, ser uma boa mãe, dar mais tempo e atenção a prole e então ,antes de meu primeiro filho nascer, comecei a lecionar.<br /> Após 4 anos de espera, Lucas nasceu, foi cuidado, amado, mimado e deu muuuito trabalho. Nunca dormia, era agitado, não crescia segundo as tabelas pediátricas. Não se fixava em brincadeiras por muito tempo e demorou muito para controlar esfincteres. Depois de menino agitado foi ficando menino aluado, parado, seu apelido na pré-escola era "Lucas Silva e Silva- No mundo da lua". Isto custou-me muitas palavras duras e desgastes. Sempre foi um menino bonzinho na escola, mas preguiçoso e distraído , segundo os professores.<br /> Enquanto isso, eu me descabelava na carreira de professora de Língua Portuguesa, tentando auxiliar meus alunos que escreviam mal, não entendiam o que liam e trocavam letras e que não se esforçavam na escola que apenas exige frequência, não rendimento.Fiz milhões de cursos para ajudar meus alunos e fiz milhões de encaminhamentos médicos para meus alunos. <br /> Tornei-me uma professora investigativa, observadora e sensível para meus alunos.No entanto, com meu filho Lucas, não fui capaz de perceber seu défic de atenção.<br /> Quando ele fez 18 anos, começou a dirigir, provou-me que estava pronto para o volante (apesar de distraído) e passei a emprestar meu carro para ele. Tínhamos um acordo de sócios: Você usa, cuida e devolve o documento e chaves. No entanto, era sempre a mesma história: Ou ele deixava o documento e levava a chave ou vice-versa, o que em meus dias impedia-me de usar o carro.<br /> Cheguei para ele aos 20 anos e propus um acordo: Zerar a dúvida sobre esse estado de "aluação" crônico, já que ele é bom caráter, por que era tão "irresponsável", esquecido? Ele aceitou, paguei-lhe uma bateria de exames com uma neuro-psicóloga e o laudo saiu finalmente: Déficit de atenção e a profissional nos orientou sobre o que fazer para minimizar seus efeitos. Lucas fez terapia, música, passou a ler mais. Eu passei a tocá-lo no braço, por exemplo, quando queria dar-lhe um recado ou um comando que não fosse "esquecido" . <br /> Hoje, sei como me comunicar com ele com mais eficiência e nosso relacionamento melhorou muito. Ele também seguiu uma série de dicas e também luta contra o défict de atenção. No seu serviço, não raro ele volta tarde para refazer erros, mas parece que ele é querido e perdoado, já que lá está há 5 anos. <br /> Fico triste por ter ralhado tanto com ele em sua infância e não ter percebido seu problema de defic de atenção. Fico triste por saber que ajudei tantas crianças e adolescentes de famílias tapadas ou ocupadas e não percebi o defict em meu filho.<br /> Hoje ele etá com 25 anos, é adulto, nossa relação é muito boa e eu espero que ele tenha perdoado sua mãe.<br /> "Filho de ferreiro, espeto de pau"…