No último Congresso Internacional da ABDA, apresentei durante uma palestra
um texto escrito por meu filho para a cadeira de filosofia do curso de economia
da PUC-RJ. O texto, cuja avaliação implicava em nota, foi solicitado
a cada aluno pelo professor da cadeira, com o objetivo de conhecer um pouco
da trajetória pessoal da turma. Ele, meu filho, recebeu grau dez, fazendo
com que todos nós chegássemos às lágrimas, inclusive
o próprio professor que acabara de conhecê-lo.
A partir das inúmeras solicitações de cópias que
tenho recebido do Brasil inteiro, decidi postar o texto aqui no site. No entanto,
na condição de mãe, preciso fazer alguns comentários
ligados ao texto que vocês lerão em seguida.
Em primeiro lugar, quero enfatizar que apesar de todas as dificuldades que
enfrentamos naquela época, em função da falta de informação
sobre TDAH por parte de algumas escolas, médicos, profissionais... talvez
o pior obstáculo com o qual nos deparamos tenha sido a arrogância,
a prepotência e a insensibilidade daqueles que se diziam educadores, mas
que optaram por EXCLUIR covardemente o que desconheciam, O TDAH representado
naquele momento pelo meu filho, para não terem que experimentar o desafio
e a impotência de encarar as suas próprias limitações
ou a ignorância que não ousa se superar pela busca do conhecimento.
Aos “terapeutas” que tanto insistiram na tese de que TDAH não
existe, que era uma doença inventada pela Indústria Farmacêutica,
que a medicação era absolutamente perigosa e desnecessária,
que se tratava de “falta de limites”, culpa minha, complexo de Édipo,
blá, blá, blá.... Se por um lado lamento o tempo perdido,
por outro, agradeço-os por terem me dado à oportunidade de olhar
nos seus olhos e perceber o quanto estavam equivocados, aprisionados no estreito
universo daqueles que só admitem uma corrente de saber - a própria.
A escola, em especial aquela que sumariamente reprovou o meu filho por não
conseguir “ficar atento e ser muito agitado”, ao coordenador que
disse que “o conselho de classe era soberano para punir alunos que não
se esforçam”... a todos que um dia tentaram atrapalhar o seu caminho,
plagiando o poeta Mario Quintana, digo:
Eles passaram, ficaram no passado.
Meu filho é que era passarinho, voa com sucesso rumo ao futuro.
Finalmente, meu afeto e eterna gratidão ao Prof. Paulo Mattos, grande
amigo, por ter mostrado ao meu filho um caminho que ele já acreditava
não existir e, ao Colégio A. Liessin pela forma acolhedora com
que o recebeu, o que fez toda diferença para que ele pudesse provar que
o sucesso era possível.
Iane Kestelman
Presidente da ABDA
Minha Vida
Ele era uma criança levada, que não parava no lugar e não
se concentrava em nada. Diziam que ele era hiperativo, mas pera aí? Como
podia ser hiperativo uma criança que ao jogar videogame ou assistir um
jogo do Flamengo na televisão ficava horas e horas parada sem ao menos
piscar os olhos?
"Mal educado!!!!" " Sem limites!!!!" "Capeta!!!!"
"Disperso!!!!" "Louco!!!" eram frases que ele comumente
ouvia.
Ele sofria com isso, porém, sempre se considerou como os outros, pois
tinha uma vida parecida com a dos seus amigos, mesmos hábitos, costumes,
cultura, mas sempre fazendo as coisas muitas vezes sem pensar. Mesmo assim,
ele não era somente defeitos, assim como perdia amigos facilmente, os
recuperava com seu carisma e sua inteligência.
Inteligência que incomodava a muitos, pois não o viam estudar
muito, se empenhar e mesmo assim colher como frutos, bons resultados... "Mas
pera aí, ele nunca pode ser um bom aluno!" "Ele só pode
estar colando".
Eis então que ele cresceu, a criança hiperativa mal educada virou
um jovem. Ele, agora mais velho, continuava tendo muitos amigos, saía,
se divertia e jogava muito bem futebol, algo em que definitivamente se concentrava
e parecia até uma pessoa "normal"; ele era o capitão
de seu time da escola, exercia toda sua liderança em quadra e se orgulhava
muito disso.
Na sala de aula, parecia que sua liderança se tornava algo negativo,
o fazia não ter forças para estudar, para prestar atenção,
atrapalhava a turma, desconcentrava os professores e criava muitas inimizades.
Inimizades essas que não acreditavam como ele podia obter bons resultados.
E as vitimas de sua tenebrosa atitude sem limites? Ele não pode corresponder
às expectativas.
Ele era o capitão do time, ele era querido.....
Ele era um menino problema; em sala de aula, ele era odiado.
Como sua vida não era feita só de futebol, ele foi campeão
no campo, e foi derrotado fora dele; foi perseguido como um bandido sem direito
a legítima defesa, afinal foi pego várias vezes em flagrante,
com sua maligna hiperatividade e sua temível impulsividade.
Orgulhosamente, foi lhe dado o veredicto final, como um juiz que dá
uma sentença a um réu, sua reprovação em matemática
foi ovacionada pelos guardiões da boa conduta e da paz escolar, e sua
conseqüente saída da escola como um início de um novo ciclo
de alegria, sem ele, aquele menino, que jogava bem futebol, mas somente isso.
Ele chorou, perdeu seus amigos, sua escola, mas mais do que tudo isso, perdeu
sua auto-confiança.
Ele já estava se tornando um adulto, e por meios do destino sua mãe
conheceu um médico que tratava de um tal “déficit de atenção”.
Seria tão somente o 445º tipo de tratamento para curar aquele garoto-problema,
algo que até o mesmo já estava praticamente convencido que era.
Mandaram-lhe tomar Ritalina, um remédio ruim, que tira fome, e que lhe
daria mais atenção e blá blá blá !!! Algo
que ele já estava cansado de ouvir. Ele tomou a medicação
sem crença nenhuma naquilo.
E o tempo foi passando, ele vivendo sua vida, em uma nova escola, procurando
seu lugar no time de futebol do colégio...
Em 4 anos ele se tornou capitão do time. E mais, foi campeão
vencendo a sua ex-escola; se formou como um dos melhores alunos da turma, passou
para a faculdade que queria, tirando nota 10 na prova de matemática,
a matéria que o fez passar um dos seus piores momentos ao ser reprovado.
Hoje ele está na faculdade. Ele ainda tem muito o que viver, com seu
jeito hiperativo, desatento, mas agora controlado, sem deixar de ser ele mesmo.
Ele vai vivendo, com o intuito de um dia poder mostrar que não era um
bandido, um mal educado, nem um “sem limites”; era apenas uma pessoa
diferente e, como todas outras pessoas diferentes, pode e deu certo na vida.
Hoje ele é feliz, tem uma namorada, estuda o que gosta, tem muitos amigos,
sua família se orgulha dele e, acima de tudo, ele próprio sabe
o que tem e vive feliz com a sua realidade.
Ele deseja que o que ele sofreu, outras pessoas não sofram um dia.
Ele?
Sou eu...
Beto
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