Dr. Rodrigo Nogueira Borghi

Médico Psiquiatra

CRM-SP:138816 RQE: 34637

Quando falamos sobre TDAH, as palavras que escolhemos não são apenas descrições: elas moldam como entendemos o transtorno, influenciam os tratamentos que buscamos e afetam profundamente como pacientes e familiares enxergam seus próprios sintomas. O termo “hiperfoco” tornou-se extremamente popular para descrever aqueles momentos em que uma pessoa com TDAH fica completamente absorvida em uma atividade por horas a fio, aparentemente imune a distrações. Mas será que essa palavra realmente descreve o que está acontecendo?

Este artigo propõe que não. E essa não é apenas uma questão de semântica – compreender corretamente o fenômeno tem implicações práticas importantes para o tratamento e para a qualidade de vida.

O Paradoxo Aparente

Se você tem TDAH, ou convive com alguém que tem, provavelmente já vivenciou esta cena: a pessoa que “não consegue prestar atenção” em tarefas importantes passa 8 horas seguidas jogando videogame, programando, lendo sobre um assunto que a fascina, ou navegando em redes sociais. Perde a noção do tempo, esquece de comer, ignora o sono que deveria ter para acordar cedo no dia seguinte. Quando finalmente “sai” desse estado, muitas vezes sente culpa, exaustão e frustração.

Chamamos isso de “hiperfoco” – sugerindo que a pessoa possui, paradoxalmente, uma capacidade superior de atenção em certas situações. Mas e se esse termo estiver nos levando na direção errada?

O Que Realmente Está Acontecendo?

Pesquisas recentes em neurociência têm demonstrado que o fenômeno popularmente chamado de “hiperfoco” não é uma capacidade atencional aumentada, mas sim uma dificuldade de desengajamento de atividades que oferecem recompensa imediata e contínua. Não é que a pessoa esteja “super focada” – é que ela ficou presa em um loop de gratificação do qual o cérebro não consegue sair.

Para entender isso, precisamos falar sobre três sistemas cerebrais fundamentais:

1. O Sistema de Recompensa e a Dopamina

A dopamina é um neurotransmissor fundamental para nossa motivação e capacidade de manter comportamentos. Mas ela não funciona como muitos pensam – não é simplesmente o “químico do prazer”. A dopamina sinaliza erros de predição de recompensa: a diferença entre o que esperávamos ganhar e o que realmente ganhamos.

Em um cérebro funcionando tipicamente, acontece algo fascinante com o tempo: a dopamina “aprende” a ser liberada não na hora da recompensa, mas em antecipação a ela. Quando você estuda para uma prova, por exemplo, seu cérebro libera dopamina durante o estudo porque “prevê” a recompensa futura (boa nota, aprovação, sucesso profissional). Essa “ponte de dopamina” permite que você persista em tarefas cujas recompensas estão distantes.

No TDAH, essa transferência de dopamina não funciona adequadamente. O cérebro não consegue gerar dopamina suficiente em antecipação a recompensas futuras – ele só responde bem a recompensas imediatas. Isso explica por que é tão difícil começar e manter tarefas com gratificação tardia (estudar, organizar, fazer tarefas administrativas), mas relativamente “fácil” manter-se em atividades com gratificação instantânea (jogos, redes sociais, hobbies intensos).

2. A Aversão ao Atraso

Ligada ao déficit de transferência de dopamina, existe outra característica fundamental do TDAH: a aversão ao atraso. Não é simplesmente “impaciência” ou “falta de força de vontade”. O cérebro com TDAH processa a espera como algo neurobiologicamente aversivo – quase doloroso.

Quando você está às 3h da manhã fazendo algo que te interessa, ignorando que precisa acordar às 7h para trabalhar, não é porque você está “muito interessado” naquilo. É porque seu sistema de avaliação de valor colapsou para o presente imediato. O futuro (as consequências de não dormir) neurobiologicamente deixou de existir ou de exercer influência sobre suas decisões. Você está experimentando uma forma extrema de “miopia temporal”.

3. O Freio Quebrado: A Habenula Lateral

Aqui chegamos a uma estrutura cerebral pequena, mas absolutamente crucial, que raramente é discutida em conversas sobre TDAH: a habenula lateral.

A habenula lateral funciona como o “centro de antirrrecompensa” do cérebro. Quando algo não está dando certo, quando você está saturado de uma atividade, quando os custos começam a superar os benefícios, a habenula lateral ativa e envia um sinal que inibe a liberação de dopamina. Esse sinal é o que faz você sentir: “já chega, preciso parar agora”.

Em um cérebro típico, depois de algumas horas em uma atividade, mesmo que prazerosa, você começa a sentir fadiga, desconforto físico, ou simplesmente a consciência de que outras coisas precisam ser feitas. A habenula lateral está enviando sinais crescentes de “custo” ao sistema de recompensa. Gradualmente, você sente o desejo natural de parar e mudar de atividade.

No TDAH, evidências emergentes sugerem que a habenula lateral não funciona adequadamente. O sinal de “pare”, “já chega”, “isso está custando muito caro” não é transmitido com a força necessária. O sistema de dopamina continua ativo, alimentado pela recompensa imediata da atividade, sem o contrapeso inibitório que deveria dizer “chega”.

O resultado? Você não está exercendo super atenção. Você está fisiologicamente incapaz de sentir que precisa parar. Não é falta de disciplina ou força de vontade – é ausência do substrato neurobiológico que gera essa sensação de saciedade.

Hiperfoco ou Perseveração? Encontrando Palavras Mais Precisas

Se o problema não é excesso de foco, mas incapacidade de desengajamento, precisamos de termos que reflitam isso. Algumas alternativas mais precisas seriam:

  • Perseveração de recompensa: enfatiza a continuação involuntária de comportamento
  • Déficit de desengajamento executivo: destaca a falha no mecanismo de parada
  • Captura atencional sustentada: indica que você foi “capturado” pelo estímulo, não que escolheu focar
  • Rigidez comportamental dependente de recompensa: mostra a falta de flexibilidade

Hiperfoco não é Flow (Estado de Fluxo)

É importante fazer uma distinção crucial: o que chamamos de “hiperfoco” no TDAH não é o mesmo que o estado de “Flow” (fluxo) descrito pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi.

O Flow é um estado de engajamento ótimo onde você está imerso em uma atividade desafiadora, mas dentro de suas capacidades. Características do Flow:

  • Você pode parar se necessário (emergência, autocuidado)
  • Ocorre em atividades que equilibram desafio e habilidade
  • Resulta em satisfação, energização, crescimento
  • Você mantém controle sobre suas ações
  • Termina por conclusão da tarefa ou saciedade natural

O “hiperfoco” no TDAH é diferente:

  • Você não consegue parar facilmente, mesmo diante de consequências
  • Ocorre frequentemente em atividades de baixa complexidade mas alta recompensa imediata
  • Resulta em culpa, exaustão, conflitos sociais
  • Você sente-se “preso”, sem controle
  • Termina apenas por exaustão física ou interrupção externa forçada

Estudos mostram que o “hiperfoco” está correlacionado com vício em internet e jogos, enquanto o Flow está correlacionado com bem-estar e produtividade saudável. São fenômenos neurobiologicamente distintos.

Evidências do Dia a Dia

Um estudo recente (Oroian et al., 2025) entrevistou 50 adultos com TDAH e descobriu que:

  • 68% experimentavam episódios frequentes de “hiperfoco”, com duração de várias horas a dias
  • Os gatilhos mais comuns eram: trabalho (35%), atividades criativas (25%), e jogos (20%)
  • Embora trouxesse satisfação pessoal, em 40% dos casos resultava em responsabilidades negligenciadas
  • 55% relataram que o “hiperfoco” impactou negativamente suas relações sociais
  • Muitos se descreveram como “presos”, incapazes de redirecionar atenção mesmo sabendo que deveriam

Esses dados confirmam: não é uma “superpotência”, mas um sintoma que causa prejuízo funcional real.

A Boa Notícia: Como Isso Muda o Tratamento

Compreender o “hiperfoco” como déficit de desengajamento, e não como excesso de atenção, abre caminhos terapêuticos importantes:

1. Medicação Estimulante

Um insight fascinante: se o “hiperfoco” fosse causado por “excesso de dopamina”, os estimulantes (que aumentam dopamina) deveriam piorá-lo. Mas acontece o oposto – a medicação adequada frequentemente dá à pessoa a capacidade de parar a atividade prazerosa.

Por quê? Porque ao aumentar a dopamina de base (tônica), a medicação:

  • Diminui o contraste entre o estímulo super recompensador e o “mundo chato”
  • Restaura a capacidade do córtex pré-frontal de exercer controle sobre impulsos límbicos
  • Pode normalizar a conectividade entre áreas executivas e o sistema habenular

2. Intervenções Comportamentais: “Próteses de Habenula”

Se seu cérebro não gera o sinal interno de “pare”, você precisa de sinais externos:

  • Alarmes programados: não para “lembrar” de parar, mas para substituir o sinal neural ausente
  • Softwares de bloqueio temporal: que forçam pausas em intervalos regulares
  • Intervenção social: pedir a alguém que o interrompa fisicamente
  • Protocolos de transição: rituais pré-planejados para mudar de atividade

Pense nisso como criar “freios externos” para um carro cujos freios internos não funcionam bem.

3. Psicoeducação Reformulada

Em vez de dizer “você tem hiperfoco, uma superpotência”, é mais útil e honesto dizer:

“Seu cérebro tem um pedal de acelerador muito sensível para coisas interessantes (sistema de dopamina), mas o pedal de freio (habenula) não funciona bem quando a estrada é muito estimulante. O tratamento não vai tirar sua capacidade de se interessar intensamente por coisas – vai te dar de volta o controle sobre quando parar.”

Isso:

  • Valida a dificuldade real (“não conseguir parar” é um problema legítimo)
  • Remove a culpa (“não é falta de força de vontade”)
  • Direciona para soluções práticas (criar freios externos, medicação)
  • Evita falsas expectativas (“não é transferível para qualquer tarefa”)

4. Estratégias de Reestruturação de Tarefas

Em vez de apenas tentar “ter mais disciplina”, você pode:

  • Injetar recompensas imediatas em tarefas importantes: quebrar projetos grandes em micro-tarefas com mini-recompensas
  • Adicionar novidade a tarefas rotineiras: mudar o ambiente, usar ferramentas diferentes, gamificar processos
  • Trabalhar com suas características neurobiológicas, não contra elas

Uma Perspectiva Evolutiva Interessante

Pesquisadores propuseram que o perfil cognitivo do TDAH pode ser entendido como uma estratégia exploratória versus estratégia de exploitação. Em ambientes de alta variabilidade e novidade, onde é importante detectar oportunidades rapidamente, o perfil TDAH pode ter vantagens. O problema é que a sociedade moderna exige cada vez mais estratégias metodológicas e persistência em tarefas estruturadas com recompensas distantes.

O “hiperfoco” aparece quando esse sistema exploratório finalmente encontra um ambiente que corresponde perfeitamente às suas características: alta variabilidade, feedback imediato, novidade contínua. O cérebro não está “focando melhor” – está em modo de “exploitação profunda” de um recurso finalmente compatível.

Isso não significa que TDAH é uma “vantagem disfarçada” ou que não precise de tratamento. Significa que o objetivo do tratamento não é “consertar” você, mas dar ferramentas para navegar um mundo que frequentemente não foi projetado para seu tipo de cérebro.

Conclusão: Por Que as Palavras Importam

Quando chamamos de “hiperfoco”, sugerimos:

  • Que é uma capacidade superior que você possui
  • Que deveria ser transferível para outras áreas
  • Que você tem controle sobre quando acontece
  • Que é algo positivo a ser celebrado

Quando reconhecemos como déficit de desengajamento, entendemos:

  • Que é uma dificuldade real que causa prejuízo
  • Que reflete o mesmo sistema disfuncional da desatenção
  • Que você não tem controle volitivo total sobre isso
  • Que precisa de estratégias compensatórias específicas

A psiquiatria tem uma história de revisar terminologias à medida que nossa compreensão avança. É hora de alinharmos nossa linguagem sobre o TDAH com o que a neurociência nos ensina. O fenômeno existe, é real, afeta significativamente a vida das pessoas. Mas “hiperfoco” não é o nome certo para ele.

Ao adotarmos termos mais precisos e educarmos pacientes e familiares sobre os mecanismos neurobiológicos reais, abrimos caminho para tratamentos mais eficazes e expectativas mais realistas. O objetivo não é tirar sua capacidade de se envolver profundamente com coisas que você ama – é dar-lhe o controle de decidir quando começar e, crucialmente, quando parar.


Referências Principais:

Oroian, B. A., Nechita, P., & Szalontay, A. S. (2025). Hyperfocus in ADHD: A Misunderstood Cognitive Phenomenon. European Psychiatry, 68(S1), S306.

Tripp, G., & Wickens, J. R. (2008). Dopamine transfer deficit: a neurobiological theory of altered reinforcement mechanisms in ADHD. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 49(7), 691-704.

Volkow, N. D., et al. (2009). Evaluating dopamine reward pathway in ADHD: clinical implications. JAMA, 302(10), 1084-1091.

Matsumoto, M., & Hikosaka, O. (2007). Lateral habenula as a source of negative reward signals in dopamine neurons. Nature, 447(7148), 1111-1115.

Sonuga-Barke, E. J. (2005). Causal models of attention-deficit/hyperactivity disorder. Biological Psychiatry, 57(11), 1231-1238.


Nota aos Leitores: Este artigo reflete pesquisas científicas atuais e visa contribuir para uma compreensão mais precisa do TDAH. Se você ou alguém próximo vivencia esses padrões, converse com um profissional especializado em TDAH sobre estratégias personalizadas de manejo.