Dr. Rodrigo Nogueira Borghi

Médico Psiquiatra

CRM-SP:138816 RQE: 34637

Introdução: O Tédio Como Manifestação Clínica no TDAH

O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é caracterizado no DSM-5 por 18 sintomas nucleares distribuídos em dois domínios: desatenção e hiperatividade/impulsividade. Entretanto, clínicos e pesquisadores observam consistentemente manifestações adicionais que, embora não integrem os critérios diagnósticos formais, exercem impacto significativo no funcionamento diário. Entre estas, a propensão elevada ao tédio emerge como fenômeno digno de investigação sistemática.

Eastwood e colaboradores (2012) definem o tédio como um estado emocional caracterizado por querer, mas ser incapaz de encontrar interesse ou prazer em uma atividade desejada. Esta definição operacional distingue o tédio de constructos relacionados: na apatia há ausência de motivação; na anedonia há incapacidade de experimentar prazer; na depressão há comprometimento global do humor. No tédio especificamente, a pessoa deseja engajar-se, reconhece que deveria estar fazendo algo, mas não consegue manter interesse ou atenção suficientes.

A relevância clínica do tédio transcende o desconforto transitório. Estudos documentam associações robustas entre propensão ao tédio e múltiplos desfechos adversos: sintomatologia depressiva e ansiosa (Goldberg et al., 2011), ideação suicida e autolesão (Ben-Zeev et al., 2012; Nederkoorn et al., 2016), acidentes ocupacionais em profissões que exigem vigilância (Kass et al., 2010), baixo desempenho acadêmico (Sharp et al., 2020; Tze et al., 2016), e disfunção ocupacional com insatisfação laboral e absenteísmo (Kass et al., 2001; Watt & Hargis, 2010).

O estudo de Orban et al. (2025), publicado no Journal of Attention Disorders, representa contribuição significativa ao investigar sistematicamente se déficits em funções executivas específicas—controle atencional e memória de trabalho—mediam a relação entre traços de TDAH e propensão ao tédio em adultos jovens.

A Teoria Cognitiva do Tédio

Da Explicação Ambiental ao Modelo Cognitivo

Teorias iniciais (Berlyne, 1960) atribuíam o tédio primariamente a fatores ambientais: ambientes monótonos ou subestimulantes seriam “inerentemente entediantes”. Entretanto, esta explicação não contempla a variabilidade interindividual substancial—por que diferentes pessoas experienciam níveis radicalmente distintos de tédio na mesma situação objetiva?

A Teoria Cognitiva do Tédio (Eastwood et al., 2012; Fisher, 1993; Hamilton et al., 1984) propõe mudança paradigmática: o tédio resulta não de propriedades intrínsecas do ambiente, mas da incapacidade do indivíduo de sustentar e controlar sua atenção em relação aos aspectos salientes de uma situação.

Sequência do tédio segundo o modelo cognitivo:

  1. Falha no Engajamento Atencional: Incapacidade de engajar ou sustentar processos atencionais executivos na tarefa
  2. Consciência Metacognitiva: Percepção da própria incapacidade de engajar adequadamente a atenção
  3. Erro Atribucional: Atribuição incorreta deste estado aversivo ao ambiente (“este material é chato”) em vez de reconhecer dificuldades atencionais próprias
  4. Desengajamento: Divagação mental ou busca por estimulação alternativa

Exemplo ilustrativo: Um estudante com TDAH inicia leitura de capítulo acadêmico. Após alguns parágrafos, percebe que releu o mesmo trecho múltiplas vezes sem retenção. Sua atenção divaga para o celular, sons ambientais, preocupações. Frustrado, conclui: “Este texto é incrivelmente chato”. Segundo a teoria, o problema não reside primariamente no texto, mas na capacidade executiva de sustentar atenção controlada.

Evidências Empíricas Prévias

Estudos anteriores forneceram suporte preliminar:

Tarefas de Atenção Sustentada: Hunter e Eastwood (2018) demonstraram que indivíduos com alta propensão ao tédio cometeram mais erros de omissão (lapsos atencionais) e comissão (falhas no controle inibitório) em tarefas de vigilância. Malkovsky et al. (2012) reportaram redução no post-error slowing (ajuste compensatório após erros) em pessoas propensas ao tédio, sugerindo déficit no monitoramento executivo.

Populações com TDAH: Correlações moderadas a fortes (r = 0,52-0,64) entre sintomas de TDAH e propensão ao tédio foram documentadas em adultos (Castens & Overby, 2009; Malkovsky et al., 2012). Hsu et al. (2020) encontraram elevações significativas em tédio-traço e tédio-estado em crianças diagnosticadas com TDAH versus controles.

Estudos Farmacológicos: Golubchik et al. (2020, 2021) demonstraram que metilfenidato reduziu significativamente tédio em crianças com TDAH. O metilfenidato aumenta catecolaminas no córtex pré-frontal, melhorando controle executivo—consistente com mecanismos atencionais.

Lacunas Anteriores

Apesar destes avanços, limitações persistiam:

  • Estudos concentraram-se em atenção sustentada/inibição; outras dimensões do controle atencional não foram investigadas
  • Memória de trabalho nunca foi examinada em relação ao tédio
  • Nenhum estudo testou formalmente modelos de mediação
  • Muitas tarefas tradicionais têm propriedades psicométricas problemáticas

O estudo de Orban et al. (2025) foi desenhado para abordar estas lacunas.

Metodologia do Estudo

Participantes e Desenho

Tipo de estudo: Transversal, caso-controle, com avaliação neuropsicológica objetiva e autorrelato.

Amostra final: 88 estudantes universitários (Midade = 19,1 anos, DP = 1,3)

  • Grupo TDAH: 31 participantes (23 mulheres, 8 homens)
  • Grupo Controle: 57 participantes (47 mulheres, 10 homens)
  • Taxa de inclusão: 76,5% (88 de 115 iniciais)

Critérios de Definição dos Grupos

Grupo TDAH (TODOS os critérios necessários):

  1. Sintomas Atuais (pelo menos um):
    • ≥5 sintomas de desatenção OU hiperatividade/impulsividade com frequência “frequente” ou “muito frequente” no BAARS-IV, OU
    • Pontuação ≥14 no ASRS-5 (sensibilidade 91,4%, especificidade 96,0%)
  2. Sintomas na Infância (obrigatório):
    • Pontuação WURS >35 (avaliação retrospectiva)
    • Racional: Diferencia TDAH verdadeiro de problemas atencionais recentes/situacionais

Características do grupo TDAH:

  • 35,5% tinham diagnóstico formal prévio
  • 38,7% tinham histórico de medicação
  • 22,6% estavam medicados atualmente
  • 12,9% usaram medicação na manhã da avaliação

Grupo Controle (TODOS os critérios necessários):

  • ≤4 sintomas no BAARS-IV com frequência elevada
  • Pontuação ASRS-5 ≤13
  • Pontuação WURS ≤35
  • Nenhum diagnóstico ou uso de medicação para TDAH

Instrumentos de Avaliação

Medidas de Autorrelato:

  1. Short Boredom Proneness Scale (SBPS): 8 itens avaliando propensão ao tédio nos últimos 6 meses (α = 0,88). Exemplos: “Acho difícil me entreter”, “Na maioria das situações, é difícil encontrar algo que me mantenha interessado”
  2. BAARS-IV: 27 itens avaliando sintomas de TDAH em adultos (desatenção, hiperatividade/impulsividade, tempo cognitivo lento; α = 0,914)
  3. ASRS-5: 6 itens de triagem para TDAH (ponto de corte ≥14)
  4. WURS: 61 itens de avaliação retrospectiva de sintomas de TDAH na infância

Medidas Neuropsicológicas de Desempenho:

Selecionadas por propriedades psicométricas superiores (Draheim et al., 2021; Foster et al., 2015):

Controle Atencional (3 tarefas):

  1. Selective Visual Arrays: Avaliar atenção seletiva ignorando distradores. Participante vê arrays de retângulos coloridos brevemente, deve recordar se retângulo específico mudou orientação. Variável dependente: k score (capacidade de itens retidos).
  2. Flanker Deadline: Avaliar controle de interferência sob pressão temporal. Setas centrais (alvo) cercadas por setas flanqueadoras (congruentes ou incongruentes). Deadline adaptativo baseado em desempenho. Variável dependente: deadline final (mais curto = melhor).
  3. Sustained Attention to Cue Task (SACT): Avaliar vigilância atencional sustentada. Tarefa de 25 minutos com alvos breves (125ms) após distradores. Variável dependente: taxa de acurácia (64 trials).

Memória de Trabalho (3 complex span tasks):

  1. Operation Span: Verificar equações matemáticas enquanto memoriza letras. Variável dependente: partial score (itens corretos na ordem).
  2. Symmetry Span: Julgar simetria de padrões enquanto memoriza localizações espaciais de quadrados vermelhos.
  3. Rotation Span: Determinar orientação de letras rotacionadas enquanto memoriza sequências de setas (direção e tamanho).

Controles metodológicos: Deadlines individualizados impedem ensaio durante processamento; critério de ≥85% acurácia no processamento garante engajamento genuíno.

Redução Dimensional: Para controlar impureza de tarefas individuais, criaram-se fatores latentes combinando tarefas relacionadas:

  • Fator de Controle Atencional: Flanker + SACT (78,8% variância explicada)
  • Fator de Memória de Trabalho: Operation + Symmetry + Rotation Span (66,5% variância explicada)

Procedimento

Sessão única de 2 horas:

  • Testes computadorizados em ordem contrabalanceada
  • Questionários em papel após cada dois testes (minimizar fadiga)
  • Questionários de TDAH e demográficos ao final

Resultados Principais

1. Diferenças Marcantes em Propensão ao Tédio

Descoberta central: Adultos com traços de TDAH reportaram níveis significativamente mais elevados de propensão ao tédio:

  • Grupo TDAH: M = 18,8 (DP = 5,3)
  • Grupo Controle: M = 8,4 (DP = 4,8)
  • Significância: t(86) = -9,35, p < 0,001
  • Tamanho do efeito: d = 2,09 (muito grande)

Contextualização: Este é um dos maiores tamanhos de efeito já documentados em estudos de TDAH, superando diferenças típicas em sintomas nucleares. Em termos práticos, há ~93% de chance de que indivíduo aleatório do grupo TDAH relate mais tédio que indivíduo do grupo controle.

Correlações fortes:

  • SBPS com ASRS-5: r = 0,717
  • SBPS com BAARS-IV: r = 0,733

2. Déficits em Controle Atencional e Memória de Trabalho

Controle Atencional (Fator Latente):

  • Diferença significativa entre grupos: t(85) = 2,90, p = 0,005, d = 0,65
  • SACT individualmente: Diferença significativa (p < 0,001, d = 0,80)
    • TDAH: 51,7/64 corretos; Controle: 57,3/64
  • Flanker e Visual Arrays: Diferenças não-significativas (possível limitação de poder)

Memória de Trabalho (Fator Latente):

  • Diferença significativa: t(84) = 3,09, p = 0,003, d = 0,70
  • Todos os três testes mostraram diferenças significativas:
    • Operation Span: p = 0,046, d = 0,45
    • Symmetry Span: p = 0,004, d = 0,67
    • Rotation Span: p = 0,038, d = 0,48

Padrão observado: Diferenças maiores em memória visuoespacial (Symmetry, Rotation) versus verbal (Operation), consistente com literatura prévia.

3. Correlações: Tédio e Funções Cognitivas

Propensão ao tédio correlacionou-se significativamente com:

  • SACT (atenção sustentada): r = -0,267
  • Symmetry Span: r = -0,242
  • Rotation Span: r = -0,198
  • Fator de Controle Atencional: r = -0,219
  • Fator de Memória de Trabalho: r = -0,251

Interpretação: Indivíduos com maior tédio demonstram pior desempenho especialmente em tarefas que exigem atenção sustentada prolongada e memória visuoespacial.

4. Análises de Mediação: A Descoberta Central

Controle Atencional como Mediador:

  • Efeito total (TDAH → Tédio): β = 1,55 (p < 0,001)
  • TDAH → Controle Atencional: β = -0,62 (p < 0,001)
  • Controle Atencional → Tédio (controlando TDAH): β = -0,15 (p < 0,05)
  • Efeito indireto: β = 0,09, 90% CI [0,01, 0,26] (significativo)
  • Efeito direto residual: β = 1,46 (p < 0,001, ainda significativo)
  • Proporção mediada: 5,8%

Interpretação: Controle atencional é mediador parcial—explica parte, mas não toda, a relação TDAH-tédio.

Memória de Trabalho como Mediador:

  • Efeito total (TDAH → Tédio): β = 1,56 (p < 0,001)
  • TDAH → Memória de Trabalho: β = -0,66 (p < 0,001)
  • Memória de Trabalho → Tédio (controlando TDAH): β = -0,15 (p < 0,05)
  • Efeito indireto: β = 0,10, 90% CI [0,01, 0,22] (significativo)
  • Efeito direto residual: β = 1,46 (p < 0,001)
  • Proporção mediada: 6,4%

Interpretação Integrada:

Juntos, controle atencional e memória de trabalho explicam aproximadamente 12% da relação entre TDAH e tédio. Embora modesto numericamente, este achado é significativo porque:

  1. Representa os primeiros mecanismos específicos identificados empiricamente
  2. São mecanismos modificáveis (alvos de intervenção)
  3. Consistente com Teoria Cognitiva do Tédio
  4. 88% restantes sugerem múltiplos fatores contribuindo (sistemas de recompensa, regulação emocional, impulsividade, busca por novidade)

Interpretação e Mecanismos Neurobiológicos

Suporte à Teoria Cognitiva do Tédio

Os resultados fornecem suporte robusto à Teoria Cognitiva aplicada ao TDAH:

  • Pessoas com TDH (déficits atencionais conhecidos) demonstram propensão elevada ao tédio (d = 2,09)
  • Pior desempenho em controle atencional e memória de trabalho associa-se a maior tédio
  • Déficits atencionais/memória mediam parcialmente relação TDAH-tédio
  • Consistente com evidências de que metilfenidato (melhora funções executivas) reduz tédio

Neurobiologia Proposta

Embora o estudo não tenha usado neuroimagem, podemos integrar achados com conhecimento neurocientífico:

Rede de Modo Padrão (DMN):

  • Regiões cerebrais (córtex cingulado posterior, pré-frontal ventromedial) que se ativam durante repouso/divagação
  • Normalmente se desativa durante tarefas atencionais
  • Associada a experiências de tédio e divagação mental
  • Em TDAH: falha em desativar adequadamente durante tarefas

Redes de Controle Executivo:

  • Regiões pré-frontais laterais e parietais
  • Normalmente se ativam durante tarefas cognitivamente demandantes
  • Em TDAH: evidências de hipoativação e disfunção

Hipótese Integrativa: Tédio em TDAH pode resultar de dificuldade em ativar redes executivas durante tarefas, combinada com falha em desativar DMN, resultando em divagação mental enquanto pessoa tenta (sem sucesso) engajar-se.

Papel da Dopamina: Metilfenidato aumenta dopamina no córtex pré-frontal, crítica para motivação, atenção sustentada e funções executivas, explicando redução de tédio com tratamento farmacológico.

Implicações Práticas

Para a Prática Clínica

1. Psicoeducação Reformulada

Substituir: “Você tem TDAH, precisa se esforçar mais para prestar atenção”

Por: “Quando você sente muito tédio, isso pode ser um sinal de que seu cérebro está tendo dificuldade real em manter foco—não é preguiça ou falta de interesse. Entender isso nos ajuda a desenvolver estratégias específicas.”

Elementos-chave:

  • Explicar conexão entre dificuldades de atenção/memória e tédio
  • Normalizar experiência (não é defeito de caráter)
  • Ensinar a reconhecer tédio como “sinal de alarme” de desengajamento atencional
  • Apresentar como problema solucionável

2. Avaliação Clínica

Incluir perguntas de triagem sobre tédio:

  • “Com que frequência você se sente entediado?”
  • “Você tem dificuldade em se manter interessado em atividades mesmo quando quer fazê-las?”
  • “O tédio interfere em sua vida acadêmica, profissional ou relacionamentos?”

3. Abordagem Farmacológica

  • Ao discutir medicação, mencionar que além de melhorar atenção/hiperatividade, pode reduzir tédio
  • Monitorar mudanças no tédio como outcome de tratamento
  • Se tédio persiste apesar de melhora em outros sintomas, considerar ajustes ou intervenções adicionais

4. Intervenções Psicológicas

Treinamento em Reconhecimento: Usar tédio como alarme precoce → implementar estratégias proativas (micropausa, mudança de posição, reengajamento consciente)

Terapia Cognitivo-Comportamental:

  • Desafiar erro atribucional (“material é chato” → “estou tendo dificuldade com minha atenção”)
  • Reestruturação de tarefas para torná-las mais “TDAH-friendly”

Para o Contexto Acadêmico

Estratégias Baseadas nos Achados:

1. Fragmentação Temporal (Chunking)

Base empírica: Déficits mais evidentes em tarefas longas (SACT = 25min).

Aplicação:

  • Substituir “Estude o capítulo 5” por “Seis blocos de 25 minutos com pausas de 5 minutos”
  • Técnica Pomodoro Adaptada: 20-25 min estudo + 5 min pausa ativa + recompensa por bloco
  • Por quê funciona: Reduz carga na atenção sustentada, previne fadiga executiva

2. Pausas Estratégicas

Princípios:

  • Pausas agendadas (não esperar sentir tédio)
  • Pausas ativas (movimentação, não redes sociais)
  • Pausas breves (5 min facilita retorno)

3. Aumento de Significado Pessoal

Base teórica: Tédio associado a atividades percebidas como sem sentido.

Estratégia: Para cada tarefa, responder explicitamente:

  • “Como isso se conecta com meus objetivos?”
  • “Por que estou fazendo isso?”
  • “Como isso vai me ajudar no futuro?”

Exemplo: “Preciso de estatística para entender artigos científicos na minha área. Sem isso, não consigo avaliar criticamente tratamentos.”

4. Elementos de Desafio Calibrados

Princípio:

  • Tarefa muito fácil → tédio
  • Tarefa muito difícil → frustração
  • Tarefa desafiadora mas alcançável → engajamento (“zona de flow”)

Aplicação: Progressão gradual; começar ligeiramente acima do nível de conforto; aumentar dificuldade gradualmente

5. Estudo Colaborativo

Benefícios para TDAH:

  • Estimulação social mantém engajamento
  • Verbalizar reforça aprendizado
  • Parceiro redireciona quando atenção divaga
  • Compromisso social aumenta motivação
  • Reduz carga na autorregulação

Estrutura: 25 min estudo individual focado → 10 min discussão/verificação juntos

6. Sistemas de Incentivos

Princípios do reforço efetivo:

  • Imediatez: Recompensa logo após comportamento
  • Consistência: Sistema previsível
  • Tangibilidade: Recompensas concretas

Exemplo: Sistema de pontos – 1 ponto por bloco de 25 min → 10 pontos = 1h atividade prazerosa

7. Incorporação de Novidade

TDAH associado a busca por novidade—usar a favor:

  • Alternar entre matérias/tópicos
  • Variar formato (leitura → resumo → explicação verbal → exercícios)
  • Estudar em locais diferentes
  • Usar recursos variados (livro, vídeo, podcast, flashcards)

Para Professores

1. Compreensão Informada

Mudança de perspectiva:

  • De: “Aluno desinteressado/preguiçoso”
  • Para: “Aluno com dificuldades executivas genuínas que se manifestam como tédio aparente”

2. Modificações Instrucionais

  • Fragmentar aulas (10-15 min exposição → atividade breve diferente)
  • Incorporar elementos multissensoriais (não só audição)
  • Tornar relevância explícita (“Por que isso importa?”)

3. Engajamento Ativo

  • Participação frequente (perguntas direcionadas, think-pair-share)
  • Movimento permitido quando ajuda concentração
  • Verificações frequentes (miniavaliações)

4. Acomodações

Quando TDAH documentado:

  • Tempo extra em avaliações
  • Ambiente de teste menos distrativo
  • Pausas durante provas longas
  • Divisão de projetos grandes em etapas

Para Famílias

1. Validação Emocional

Substituir: “Você precisa parar de reclamar e simplesmente fazer”

Por: “Eu sei que é realmente difícil para você manter foco. O tédio que você sente é real. Vamos pensar juntos em estratégias.”

2. Estruturação Ambiental

  • Criar “zona de estudo” com mínimo de distrações
  • Estrutura temporal com horários consistentes
  • Rotinas visíveis (quadro, checklist)
  • Timer visível para blocos de trabalho

3. Suporte sem Microgerenciamento

Equilíbrio: Prover estrutura sem retirar autonomia

  • Estabelecer estrutura inicial juntos
  • Verificar periodicamente
  • Estar disponível para dúvidas
  • Permitir “luta produtiva”
  • Autonomia gradual

4. Evitar Tarefas Desnecessariamente Longas

Exemplo: Em vez de “Copie lista de 50 palavras três vezes cada” → “Escreva cada palavra uma vez e use 10 em frases criativas”

5. Autocuidado dos Cuidadores

Realidade: Criar filho com TDAH é mais desgastante

  • Buscar suporte (grupos, terapia)
  • Pausas regulares
  • Celebrar pequenos progressos

Para Indivíduos com TDAH

1. Autoconhecimento

  • Identificar padrões: Quando tenho melhor foco? Que tarefas me deixam mais entediado?
  • Diário de atenção/tédio por uma semana
  • Ajustar estratégias baseado em dados reais

2. Planejamento Realista

  • Evitar otimismo irrealista (“Vou estudar 6h seguidas!”)
  • Considerar “imposto TDAH” (tarefas levam 1,5-2x mais tempo)
  • Planejar com buffer

3. Sistemas Externos

  • Aceitar necessidade de suportes (não é “trapacear”)
  • Ferramentas: Alarmes múltiplos, apps de bloqueio, checklists físicas, calendários visuais

4. Autocompaixão

  • Desafio: Auto-crítica severa
  • Prática: Reconhecer que dificuldade é real (não falha moral)
  • Reframing: “Tenho dificuldades reais com iniciação de tarefas devido ao TDAH, mas estou trabalhando em estratégias”

Limitações e Direções Futuras

Limitações Reconhecidas

  1. Poder estatístico limitado (n=88): Pode detectar apenas efeitos médios-grandes; efeitos pequenos podem ter sido perdidos
  2. Características da amostra: Jovens universitários, predominantemente mulheres, região específica—generalização limitada
  3. Ausência de diagnóstico formal em maioria: Grupo representa “traços elevados” mais que TDAH diagnosticado formalmente
  4. Viés de método único: TDAH e tédio medidos por autorrelato pelo mesmo informante
  5. Design transversal: Não permite inferências causais definitivas
  6. Mecanismos não testados: Controle atencional e memória de trabalho explicam apenas ~12%; ficam sem investigação sistemas de recompensa, regulação emocional, impulsividade, busca por novidade

Direções Futuras

  1. Estudos maiores (200-300+ participantes) para detectar efeitos menores e permitir análises de subgrupos
  2. Estudos longitudinais examinando se mudanças em funções executivas precedem mudanças em tédio
  3. Estudos de intervenção: Treinamento cognitivo ou tratamento farmacológico reduz tédio? Intervenções psicossociais são efetivas?
  4. Ampliação de mecanismos: Incluir regulação emocional, sistemas de recompensa, flexibilidade cognitiva, impulsividade
  5. Neuroimagem: Ativação da DMN correlaciona-se com tédio? Tratamento normaliza padrões de ativação cerebral?
  6. Diversificação de amostras: Crianças, adultos mais velhos, amostras balanceadas por gênero, culturas não-ocidentais
  7. Estudos ecológicos: Momentary assessment (avaliações múltiplas ao longo do dia no mundo real)
  8. Desenvolvimento de intervenções específicas para tédio em TDAH (manuais de CBT adaptada, protocolos de treinamento de pais)

Conclusão

O estudo de Orban e colaboradores (2025) representa marco importante em nossa compreensão da propensão ao tédio em TDAH. Pela primeira vez, pesquisadores identificaram e quantificaram mecanismos neuropsicológicos específicos—controle atencional e memória de trabalho—que parcialmente explicam por que indivíduos com TDAH experimentam níveis marcadamente elevados de tédio.

Contribuições Centrais

  1. Quantificação robusta: Tamanho de efeito excepcional (d = 2,09) estabelece propensão ao tédio como característica fenotípica central do TDAH
  2. Identificação de mecanismos: Controle atencional e memória de trabalho mediam parcialmente (~12%) a relação TDAH-tédio, fornecendo primeiro modelo mecanicista empiricamente testado
  3. Suporte à teoria: Resultados fornecem evidência convergente para Teoria Cognitiva do Tédio no contexto de TDAH
  4. Fundamentação para intervenção: Identificação de mecanismos modificáveis fornece alvos racionais para intervenção farmacológica e comportamental

Transformação Clínica

O conhecimento gerado transforma fundamentalmente como devemos conceptualizar tédio:

No nível conceitual: Tédio passa de “sintoma vago” para “manifestação compreensível de déficits executivos centrais”, validando experiências de pacientes

No nível da avaliação: Tédio deve ser sistematicamente avaliado em avaliações de TDAH e monitorado como outcome de tratamento

No nível da intervenção: Estratégias específicas baseadas em evidência podem ser implementadas (fragmentação temporal, pausas estratégicas, aumento de significado, calibração de desafio, sistemas de recompensa)

O Tédio Como Janela

Este estudo exemplifica movimento na pesquisa de TDAH além de catalogação de sintomas para compreensão mecanicista. Entender que tédio resulta parcialmente de falhas no controle executivo:

  • Unifica sintomas aparentemente díspares sob estrutura explicativa comum
  • Prediz consequências e desfechos
  • Sugere intervenções específicas
  • Gera novas questões de pesquisa

Reconhecendo Complexidade

Humildade científica requer reconhecer que ~88% da relação TDAH-tédio permanece inexplicada, mecanismos causais exatos não foram estabelecidos, e aplicabilidade a outras populações necessita verificação. Estas não são falhas, mas reconhecimento de que ciência avança incrementalmente.

Mensagens Finais

Para clínicos: Reconheçam tédio como manifestação legítima de dificuldades executivas; investiguem, validem, e intervenham de forma direcionada.

Para educadores: Aluno “entediado” pode estar genuinamente lutando com limitações neurobiológicas; modificações instrucionais são provisão de acesso equitativo.

Para famílias: Quando seu filho diz “está chato”, há substrato real—não é manipulação. Validem, apoiem, trabalhem colaborativamente.

Para indivíduos com TDAH: Há razão neurobiológica para tédio frequente (não é falha moral); estratégias específicas podem ajudar substancialmente; você não está sozinho.

O tédio no TDAH não é sobre falta de vontade—é sobre neurobiologia, funções executivas e a necessidade de suportes adequados. Com compreensão baseada em evidências e estratégias apropriadas, qualidade de vida pode melhorar significativamente.


Referência: Orban, S. A., Blessing, J. S., Sandone, M. K., Conness, B., & Santer, J. (2025). Why Are Individuals With ADHD More Prone to Boredom? Examining Attention Control and Working Memory as Mediators of Boredom in Young Adults With ADHD Traits. Journal of Attention Disorders, 30(1), 8-22. https://doi.org/10.1177/10870547251356723