Dr. Rodrigo Nogueira Borghi
Médico Psiquiatra – CRM-SP 138816 | RQE 34637
Por que isso importa?
Por muito tempo, o TDAH foi tratado como assunto de criança. Hoje sabemos que não é. Estimativas consistentes apontam que entre 2% e 3,3% dos adultos acima dos 50 anos têm TDAH — e a maioria nunca foi diagnosticada, muito menos tratada. Mas ao chegarmos nos pacientes mais velhos, uma pergunta urgente emerge: como o TDAH se manifesta cognitivamente nessa faixa etária? E como distingui-lo de outras condições, como o Comprometimento Cognitivo Leve (CCL) ou as demências?
É exatamente isso que Pardo-Palenzuela e colaboradores tentaram responder em uma revisão sistemática recente, publicada no Journal of Attention Disorders. O objetivo era mapear o perfil cognitivo do TDAH em adultos com 50 anos ou mais, a partir das melhores evidências disponíveis.
O Estudo
Os pesquisadores realizaram uma busca sistemática em três grandes bases de dados — PubMed, Web of Science e Embase —, cobrindo os últimos 20 anos de literatura. De um total inicial de 493 referências, chegaram a 10 estudos com qualidade metodológica suficiente para inclusão: 3 longitudinais e 7 transversais.
Os critérios de inclusão foram rigorosos: apenas estudos com amostras de idosos com diagnóstico confirmado de TDAH, sem comorbidades psiquiátricas ou cognitivas como variáveis confundidoras, e com grupo controle para comparação de desempenho neuropsicológico.
O Que os Dados Mostram
O panorama que emerge é mais nuançado do que se poderia esperar. O perfil cognitivo do TDAH no envelhecimento não é simplesmente “pior em tudo” — e algumas descobertas chegam a ser contraintuitivas.
Atenção: Este foi o domínio mais consistentemente comprometido. Quanto maior a gravidade dos sintomas de desatenção, maior o déficit atencional — de forma robusta tanto nos estudos transversais quanto nos longitudinais.
Memória episódica: Adultos mais velhos com TDAH apresentam desempenho significativamente inferior ao de controles saudáveis. Um dos estudos encontrou diferenças com tamanhos de efeito grandes na memória verbal, incluindo aquisição, evocação tardia e reconhecimento. Outro identificou um déficit específico de codificação associado a afilamento do lobo frontal — sugerindo substrato neurobiológico preciso.
Funções executivas: Aqui a história se complica. Alguns estudos mostram déficits em memória de trabalho, inibição e flexibilidade cognitiva em relação a controles. Mas ao comparar idosos com adultos mais jovens com TDAH, os estudos revelam desempenho igual ou até superior em inibição, velocidade de processamento, fluência verbal e tolerância à frustração. Isso não é trivial.
Em outras palavras: os idosos com TDAH parecem melhorar em relação a si mesmos — ao TDAH mais jovem — em várias dimensões executivas, mesmo que ainda fiquem abaixo de controles saudáveis da mesma faixa etária.
Achado-chave: O perfil cognitivo do TDAH em idosos é heterogêneo. Atenção e memória episódica são os domínios mais comprometidos de forma consistente. Funções executivas mostram resultados mistos — com possível melhora relativa em relação ao TDAH mais jovem, mas com déficits persistentes em comparação a controles sem o transtorno.
O Que Isso Muda na Prática Clínica?
A revisão levanta implicações diretas para o trabalho com pacientes na faixa dos 50, 60 anos ou mais.
- O critério de início na infância pode ser um obstáculo diagnóstico. Idosos com TDAH frequentemente não conseguem fornecer relatos confiáveis de sintomas na infância — seja pelo declínio esperado da memória autobiográfica, seja porque muitos funcionaram bem por décadas graças a suportes ambientais e QI elevado. Insistir nesse critério pode gerar falsos negativos em massa.
- TDAH e demência compartilham sintomas, mas não compartilham perfis. Esquecimento, desatenção, dificuldade de organização — tudo isso aparece tanto no TDAH quanto no CCL e nas demências. A revisão aponta que o TDAH tardio tende a apresentar déficits mais circunscritos à atenção e à memória de trabalho, enquanto CCL e demências costumam afetar de forma mais ampla linguagem, habilidades visuoespaciais e memória semântica.
- Evidências crescentes associam TDAH e risco de demência. Estudos recentes identificaram aumento significativo do risco demencial em adultos com TDAH, e associação independente com Doença de Corpos de Lewy. Isso não é alarme — é chamado à ação clínica. O diagnóstico e tratamento adequado do TDAH em idosos podem ter impacto preventivo real.
- Protocolos neuropsicológicos padronizados são urgentes. A heterogeneidade metodológica entre os estudos torna impossível uma conclusão definitiva até o momento. Há necessidade de consenso internacional sobre ferramentas de avaliação cognitiva específicas para essa faixa etária com TDAH.
Para Pacientes e Famílias
Se você ou alguém próximo tem mais de 50 anos e enfrenta dificuldades persistentes com atenção, memória e organização, algumas reflexões são importantes:
- Sintomas de TDAH que duraram a vida toda não desaparecem com a idade — eles evoluem, mudam de forma, mas permanecem presentes.
- O fato de “ter funcionado bem” até determinada fase não exclui o diagnóstico. Muitas pessoas compensaram por décadas e o sistema começa a falhar justamente quando as demandas aumentam ou os suportes diminuem.
- Confundir TDAH com “coisa da idade” é um erro com consequências. Deixar o TDAH sem tratamento na velhice pode impactar qualidade de vida, saúde física, relacionamentos e possivelmente o risco de declínio cognitivo futuro.
- Se houver preocupação com memória ou cognição, busque avaliação com profissional experiente em TDAH em adultos. Um diagnóstico diferencial cuidadoso pode mudar o curso do tratamento.
Limitações e Perspectivas
Os autores são honestos sobre as limitações da revisão. Apenas 10 estudos preencheram os critérios de qualidade, com amostras heterogêneas e metodologias diversas. As comorbidades foram deliberadamente excluídas para isolar o TDAH puro — o que aumenta a validade interna, mas reduz a possibilidade de se extrapolar os achados para os pacientes reais, que raramente chegam ao consultório sem comorbidades.
O campo ainda precisa de estudos longitudinais bem desenhados, com amostras grandes, que acompanhem a trajetória cognitiva do TDAH desde a meia-idade até o envelhecimento avançado. E precisa, acima de tudo, de consenso sobre quais ferramentas usar para essa avaliação.
O envelhecimento não “cura” o TDAH. Ele o transforma. E o campo está apenas começando a entender essa transformação. Por isso, este tipo de revisão — com todas as suas limitações — é um passo necessário para que clínicos e pesquisadores construam, juntos, melhores caminhos para esses pacientes.
Referência do Artigo Comentado
Pardo-Palenzuela, N., Onandia-Hinchado, I., & Diaz-Orueta, U. (2025). Cognitive profile of ADHD in older adults: A systematic review. Journal of Attention Disorders, 30(1), 152–162. https://doi.org/10.1177/10870547251385758
