Francis Moreira da Silveira
Médico Psiquiatra
CRM-MG: 55.307/ RQE: 44.612
A associação entre Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e “psicopatia” é frequentemente discutida de forma imprecisa, o que favorece estigma e erros diagnósticos—sobretudo em interfaces clínicas e médico-legais. À luz do DSM-5-TR, o TDAH permanece um transtorno do neurodesenvolvimento, com critérios essencialmente preservados (as mudanças no DSM-5-TR para TDAH são predominantemente textuais/interpretativas, não uma “redefinição” do transtorno).  Já “psicopatia” não é um diagnóstico DSM, mas um construto clínico-empírico, fortemente usado em pesquisa e perícia, com dimensões afetivo-interpessoais e comportamentais.  O diagnóstico DSM que mais se aproxima do eixo antissocial é o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS/ASPD), que exige, entre outros critérios, evidência de Transtorno de Conduta com início antes dos 15 anos.
Este artigo propõe um enquadramento prático: em muitos casos, o que aproxima “TDAH não tratado” de comportamentos antissociais é a desinibição/impulsividade e a desorganização persistente, frequentemente agravadas por comorbidades (transtornos disruptivos, uso de substâncias, instabilidade emocional). Entretanto, quando se decompõe “psicopatia” em facetas, o TDAH tende a se associar mais às dimensões comportamentais/lifestyle do que ao núcleo afetivo-interpessoal. 
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1) Introdução: por que “parece a mesma coisa” e não é
Na prática, “comportamento antissocial” costuma ser entendido como um bloco único. Clinicamente, isso é um erro. Há comportamentos que se expressam como:
•Reações impulsivas e desorganizadas (muito compatíveis com TDAH não tratado, especialmente quando há baixa autorregulação),
•Padrões persistentes de violação de normas/direitos com critérios sindrômicos (TPAS/ASPD),
•Traços afetivo-interpessoais específicos (construto psicopatia), que não são equivalentes a “impulsividade”.
A confusão cresce quando o diagnóstico de TDAH é tardio (ou o tratamento é insuficiente), pois o indivíduo pode chegar à vida adulta com histórico acumulado de: fracasso escolar, conflitos repetidos, instabilidade ocupacional, tomadas de decisão de alto risco e dificuldade de aprendizagem por consequência—fenótipo que “lembra” o eixo antissocial, mas pode ter um motor primário diferente.
Ponto DSM-5-TR crucial: “tardio” aqui deve ser entendido como diagnóstico/tratamento tardios, não “início tardio”. Para TDAH, a presença de sintomas no desenvolvimento é central; o DSM-5-TR não reposiciona o transtorno como de início adulto.
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2) DSM-5-TR: o que é diagnóstico formal e o que é construto
2.1 TDAH (DSM-5-TR)
O DSM-5-TR mantém o TDAH como transtorno do neurodesenvolvimento; discussões recentes sobre o DSM-5-TR indicam que não houve mudança substancial nos critérios diagnósticos, embora haja atualização textual e ênfases descritivas. 
2.2 TPAS/ASPD (DSM) e requisito de conduta precoce
O TPAS/ASPD é diagnóstico formal. Um critério frequentemente negligenciado na prática é a exigência de evidência de Transtorno de Conduta com início antes dos 15 anos, além da idade mínima e exclusões. 
Isso tem impacto direto no diferencial: adultos impulsivos e irresponsáveis sem história confiável de conduta precoce podem estar fora do TPAS, mesmo que causem problemas funcionais relevantes.
2.3 Transtorno de Conduta e o especificador “com emoções pró-sociais limitadas”
No DSM-5/DSM-5-TR, o Transtorno de Conduta pode receber o especificador “com emoções pró-sociais limitadas”, que operacionaliza um subgrupo com características afetivas relevantes (por exemplo, baixa culpa/empatia, afeto superficial), estáveis ao longo do tempo e em múltiplos contextos. 
Revisões sistemáticas indicam que esse especificador ajuda a identificar um grupo com maior gravidade e risco de pior adaptação futura. 
2.4 “Psicopatia”
“Psicopatia” é um construto clínico e empírico, frequentemente associado ao uso do PCL-R em contextos forenses e à distinção entre dimensões afetivo-interpessoais e dimensões comportamentais/antisociais. 
Em termos práticos: psicopatia não se conclui por “mau comportamento”. Exige avaliação dimensional, histórica, multi-informante e, quando pertinente, instrumentos validados.
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3) O que o “TDAH não tratado” produz clinicamente (e por que pode imitar antissocialidade)
Quando TDAH persiste sem tratamento efetivo (ou com tratamento fragmentado), tende a haver combinação de:
•Desinibição (agir antes de pensar),
•Baixo planejamento e dificuldade de manter objetivos de longo prazo,
•Preferência por recompensas imediatas,
•Desregulação emocional (reatividade, irritabilidade, impulsos),
•Dificuldade de manter rotinas (trabalho/estudos/finanças).
Essa combinação pode gerar comportamentos socialmente inadequados, conflitos e decisões de risco. O ponto técnico é: isso pode ser explicado por falhas executivas e autorregulatórias sem implicar, necessariamente, o núcleo afetivo-interpessoal associado ao construto psicopatia.
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4) Evidências empíricas relevantes (o que os estudos mostram)
4.1 Adultos com TDAH e “traços psicopáticos”: quais facetas sobem?
Em estudo com adultos com TDAH avaliados por instrumento de traços psicopáticos, observou-se elevação em componentes ligados a externalização e estilo de vida (culpar terceiros, não conformismo, descuido/“não planejar”), enquanto características emocionais nucleares (como frieza) não apareceram como eixo central do grupo.
Isso sustenta uma leitura clínica importante: TDAH tende a se relacionar com a “ponta comportamental” do construto, não necessariamente com o núcleo afetivo-interpessoal.
4.2 Em contexto forense: a importância dos problemas de conduta
Em amostra de homens encarcerados, a relação entre sintomas de TDAH na infância e psicopatia na vida adulta foi discutida com ênfase no papel dos problemas de conduta na infância como elemento explicativo/mediador.
Isso é útil porque desloca o foco do rótulo (“psicopatia”) para um marcador clínico mais operacional: história de conduta persistente e precoce.
4.3 Risco de envolvimento com justiça e desfechos antissociais em TDAH
Uma meta-análise e revisão sistemática de estudos de longo prazo encontrou associação entre TDAH na infância e maior risco de prisões/condenações/encarceramento ao longo do seguimento.
Revisão ampla sobre TDAH e comportamento antissocial destaca a relevância de comorbidades (particularmente transtornos disruptivos e uso de substâncias) e condições ambientais no agravamento do quadro.
4.4 Tratamento do TDAH e criminalidade: dado observacional robusto
Um estudo de grande escala com comparação intraindivíduo observou que taxas de criminalidade foram menores durante períodos em que pacientes com TDAH estavam medicados, levantando a hipótese de efeito protetor do tratamento (com as cautelas inerentes a estudos observacionais). 
Clinicamente, isso reforça: quando o foco é risco e funcionamento social, tratar TDAH adequadamente pode ter impacto relevante além do sintoma.
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5) Diferencial clínico: TDAH não tratado vs. TPAS vs. construto psicopatia
Abaixo, um modelo objetivo, compatível com a lógica DSM-5-TR e com boa utilidade forense.
5.1 Perguntas-chave para TDAH não tratado
1.Há evidências de sintomas nucleares desde o desenvolvimento (atenção/hiperatividade-impulsividade) em mais de um contexto?
2.O padrão de prejuízo é predominantemente executivo/organizacional (rotina, planejamento, constância)?
3.Há remorso/empatia preservados, mas “atropelados” por impulsividade e reatividade?
5.2 Perguntas-chave para TPAS/ASPD
1.Existe história confiável de Transtorno de Conduta com início antes dos 15 anos?
2.O padrão é persistente e pervasivo, com violação de normas/direitos, irresponsabilidade crônica e baixa conformidade social, independentemente de contexto?
5.3 Perguntas-chave para o construto “psicopatia”
1.Há padrão afetivo-interpessoal consistente (ex.: superficialidade afetiva, baixa culpa/empatia, manipulação instrumental) como eixo central e estável? 
2.A avaliação foi multi-informante e baseada em histórico longitudinal, reduzindo vieses de “impressão atual”?
5.4 Onde mais se erra
•Confundir impulsividade + irresponsabilidade (TDAH não tratado) com “ausência de empatia” (núcleo psicopático).
•Ignorar o requisito de conduta precoce ao aventar TPAS. 
•Não investigar comorbidades que “puxam” o comportamento: uso de substâncias, transtornos do humor, transtornos disruptivos e contexto social. 
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6) Considerações médico-legais (sem rotulagem apressada)
Em perícia, o risco é transformar um fenótipo comportamental (impulsividade, conflitos, decisões ruins) em um rótulo de personalidade sem base longitudinal. A literatura enfatiza que psicopatia é construto dimensional, e seu uso exige rigor metodológico. 
Boas práticas incluem:
•dados colaterais (família, escola, histórico ocupacional),
•consistência temporal,
•instrumentos estruturados quando apropriado,
•diferencial com estados clínicos e intoxicação/abstinência.
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7) Implicações terapêuticas e preventivas (o que faz diferença no mundo real)
Sem discutir “rótulos”, o enfoque que mais reduz dano costuma ser:
1.Tratar TDAH de forma consistente (farmacológico e psicossocial conforme diretrizes locais) e monitorar desfechos funcionais; há evidência observacional de associação entre medicação e menor criminalidade.
2.Identificar e tratar comorbidades (especialmente uso de substâncias e transtornos disruptivos), que amplificam risco de desfechos antissociais.
3.Em casos com histórico de Transtorno de Conduta, avaliar a presença do especificador emoções pró-sociais limitadas, que altera prognóstico e estratégias de intervenção.
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Conclusões
1.TDAH não tratado pode se apresentar com comportamentos socialmente disfuncionais que simulam antissocialidade, por mecanismos de desinibição e falhas executivas.
2.TPAS/ASPD requer rigor diagnóstico e, em especial, evidência de Transtorno de Conduta antes dos 15 anos—ponto frequentemente negligenciado.
3.Psicopatia é construto, não diagnóstico DSM; sua inferência exige avaliação dimensional e histórica, evitando que “mau funcionamento” seja confundido com núcleo afetivo-interpessoal.
4.A melhor abordagem aplicada é focar em diagnóstico correto, comorbidades e tratamento consistente, pois isso se associa a redução de desfechos adversos em estudos robustos.
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Referências
•Koutsoklenis A, Honkasilta J. ADHD in the DSM-5-TR: What has changed and what has not. 2023.
•Hare RD, Neumann CS. Psychopathy as a clinical and empirical construct. Annual Review of Clinical Psychology. 2008.
•Fisher KA, et al. Antisocial Personality Disorder (StatPearls). Atualização 2024.
•Eisenbarth H, et al. Psychopathic traits in adult ADHD patients. Personality and Individual Differences. 2008.
•Abramowitz CS, Kosson DS, Seidenberg M. Childhood ADHD, conduct problems and adult psychopathy in male inmates. Personality and Individual Differences. 2004.
•Mohr-Jensen C, Steinhausen HC. Risks of arrests/convictions/incarcerations after childhood ADHD: meta-analysis. Clinical Psychology Review. 2016.
•Retz W, et al. ADHD, antisociality and delinquent behavior over the lifespan. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2021.
•Lichtenstein P, et al. Medication for ADHD and criminality. New England Journal of Medicine. 2012.
•Colins OF, et al. The DSM-5 Limited Prosocial Emotions specifier for Conduct Disorder (revisão). 2021.
