Introdução: O Sequestro Emocional
Vamos começar com uma reflexão que transcende a psiquiatria e toca a filosofia: por que fazemos o que fazemos? Mais especificamente, por que, às vezes, fazemos exatamente o oposto do que gostaríamos de fazer?
Muitos pacientes com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) chegam ao consultório com uma queixa que não está nos manuais diagnósticos tradicionais. Eles não dizem “sou desatento”. Eles dizem: “Eu explodo por nada”, “Meu pavio é curto”, “Falo coisas no calor do momento das quais me arrependo segundos depois”, “Sinto tudo de 0 a 100 em um instante”.
O que eles descrevem é um “sequestro emocional”. É a sensação de que, em um momento, você é um adulto racional e, no instante seguinte, o sistema é invadido por uma emoção tão intensa que ela assume o controle. Isso não é uma falha moral. Não é falta de vontade. É uma condição neurobiológica que precisa ser dissecada.
Desvendando a Tempestade: Impulsividade Emocional (EI) vs. DESR
Historicamente, o TDAH foi enquadrado como um transtorno cognitivo (atenção) e comportamental (hiperatividade). A emoção era vista como secundária. No entanto, para muitos — e ouso dizer, para a maioria —, a instabilidade emocional é a fonte do maior sofrimento.
Parte da dificuldade em tratar esse aspecto é a “sopa de letrinhas” de termos: labilidade emocional, reatividade, irritabilidade, Impulsividade Emocional (EI) e Desregulação Emocional (DESR). Vamos esclarecê-los.
- Impulsividade Emocional (EI): Pense nisso como a ação, a reação imediata. É a manifestação visível. É a tendência de reagir a um gatilho emocional (uma frustração, uma provocação) com força total e imediata, sem o “compasso de espera” que permite a reflexão. É o “pavio curto”, a explosão de temperamento, a resposta ríspida, a decisão tomada no calor da paixão ou da raiva. É o que os critérios diagnósticos clássicos do TDAH já descrevem para cognição e comportamento (impulsividade cognitiva/motora), mas aplicado ao mundo das emoções.
- DESR (Deficient Emotional Self-Regulation ou Auto-Regulação Emocional Deficiente): Este é o conceito mais amplo; é o déficit no processo. DESR é o termo clínico para a incapacidade crônica de modular ou gerenciar uma resposta emocional. Se a EI é a explosão, a DESR é a falha no sistema de freios que deveria ter contido essa explosão. A DESR é a dificuldade em “amortecer” emoções (sejam elas positivas ou negativas), em se acalmar após ficar chateado e em tolerar a frustração.
Em suma: a DESR é o déficit central na autorregulação; a Impulsividade Emocional é um dos seus sintomas mais evidentes. Estudos recentes, como a revisão de Faraone e colegas, argumentam que ambos, EI e DESR, são tão fundamentais para o transtorno que deveriam ser considerados sintomas centrais do TDAH, e não apenas características “associadas”.
A Neurobiologia: Por que o “Freio” Emocional Falha
Para entender o porquê dessa falha, precisamos recorrer ao modelo do Dr. Russell Barkley. Ele argumenta há décadas que o TDAH não é primariamente um transtorno de atenção, mas sim um transtorno do desenvolvimento do controle inibitório — o “freio” do cérebro.
Esse “freio” é a base da autorregulação. A autorregulação é a nossa capacidade de gerenciar a nós mesmos para atingir metas futuras. Barkley divide essa capacidade em quatro Funções Executivas principais que dependem desse freio:
- Memória de Trabalho Não-Verbal (Visualizar o futuro).
- Internalização da Fala (O nosso “diálogo interno” que nos guia).
- Reconstituição (Planejamento e solução de problemas).
- Autorregulação do Afeto, Motivação e Excitação: A capacidade de “amortecer” emoções (positivas ou negativas), gerar motivação interna e moderar nossa reação.
Aqui está a conexão: A DESR é a descrição clínica da falha nessa quarta função executiva.
Quando uma pessoa neurotípica sente raiva, o freio executivo (controle inibitório) entra em ação, permitindo que o diálogo interno, diga: “Não grite, você está no trabalho”. Na pessoa com TDAH, o freio é fraco. A emoção (afeto) não é “amortecida” pela função. O resultado é a Impulsividade Emocional (EI): a emoção vaza, crua e imediata, e o diálogo interno só aparece depois que a explosão já ocorreu.
O Impacto Real: O Estudo de Surman
O quão comum é isso? Um estudo fundamental de Surman e colegas nos deu uma resposta clara. O estudo se propôs a medir a DESR (o déficit amplo). Para fazer isso, eles usaram itens de escala que medem, na prática, a Impulsividade Emocional (baixa tolerância à frustração, explosões de temperamento, instabilidade de humor).
Os resultados foram inequívocos:
- A DESR era maciçamente mais comum em adultos com TDAH.
- 55% dos adultos com TDAH relataram um nível extremo de DESR, um nível mais grave do que 95% da população sem TDAH.
- Essa desregulação não era apenas um sintoma de ansiedade ou depressão; ela parecia ser uma característica intrínseca do TDAH para muitos.
O estudo de Surman também foi claro sobre as consequências. A DESR (manifestada como EI) está diretamente associada a um prejuízo funcional grave:
- Menor Qualidade de Vida: Em quase todos os domínios (humor, trabalho, vida social, família, finanças).
- Pior Ajuste Social: Maior dificuldade em manter relacionamentos.
- Problemas de Relacionamento: Menor probabilidade de serem casados.
- Riscos Físicos: Maior risco de acidentes de trânsito e até de serem presos.
A impulsividade emocional leva a decisões precipitadas que destroem relacionamentos, carreiras e a segurança pessoal.
Estratégias Práticas: Construindo Andaimes para a Emoção
Se o problema é neurobiológico, a solução não é “tentar mais”. A solução é usar estratégias e terapias que “emprestem” ao cérebro o freio que lhe falta. A psicoeducação é a base.
Para Pais (Atuando como Córtex Pré-Frontal Externo)
Seu filho não explode “para te provocar”. Ele explode porque o mecanismo de freio (DESR) falhou. O seu papel não é punir a emoção (a EI), mas ensinar a habilidade de regulá-la.
- Validação Radical: A emoção do seu filho é real, mesmo que a causa pareça trivial. Em vez de “Pare de chorar por isso”, diga: “Eu vejo que você está furioso porque o brinquedo quebrou. É muito frustrante quando isso acontece.” A validação acalma o sistema límbico.
- Co-Regulação (O Andaime): Você é o regulador externo. Use um tom de voz calmo e firme. “Eu não vou deixar você se machucar ou machucar os outros. Vamos respirar fundo juntos.” Você está, literalmente, modelando a autorregulação.
- Ensine Habilidades (Mentalidade TCC/DBT): Quando a crise passar, ensine habilidades. A Terapia Comportamental Dialética (DBT), adaptada para TDAH, foca em habilidades como:
- Mindfulness: “Vamos parar e apenas notar a raiva. Onde ela está no seu corpo? É quente? É apertada?”
- Tolerância ao Mal-Estar: “Quando você sentir a raiva subindo, o que podemos fazer imediatamente? Apertar uma bola de gelo, dar 10 pulos, cantar uma música alta.”
Para Adultos (Aprendendo a Surfar a Onda)
Para o adulto, a mudança vem de duas terapias baseadas em evidências: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Terapia Comportamental Dialética (DBT).
- Psicoeducação (TCC): O primeiro passo é o que estamos fazendo agora. Entender que a DESR é um sintoma do TDAH reduz a vergonha. A vergonha (“Eu sou uma pessoa horrível”) joga gasolina no fogo emocional. A aceitação (“Meu cérebro funciona assim e precisa de ajuda”) é o extintor.
- Análise de Cadeia (TCC/DBT): A TCC nos ensina a ser detetives do nosso comportamento. A Impulsividade Emocional (a explosão) não surge do nada. Existe uma cadeia de eventos :
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- Gatilho: Meu chefe criticou meu relatório.
- Pensamento: “Ele acha que sou incompetente. Eu sou um fracasso.”
- Emoção: Raiva intensa, vergonha.
- Comportamento: Responder defensivamente (EI), bater a porta.
- Consequência: Piora da relação no trabalho.
Ao identificar os pensamentos que ligam o gatilho à emoção, podemos começar a desafiá-los.
- Habilidades de Tolerância ao Mal-Estar (DBT): A DBT foi criada para a desregulação emocional extrema. A meta não é não sentir, mas sobreviver ao sentimento sem piorar a situação. A habilidade “STOP” é vital:
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- S (Stop/Pare): Não reaja. Congele.
- T (Take a step back/Dê um passo atrás): Afaste-se da situação (vá ao banheiro, saia da sala).
- O (Observe/Observe): O que você está sentindo? O que está pensando?
- P (Proceed Mindfully/Prossiga com Atenção Plena): Qual ação vai ajudar a situação, em vez de piorá-la?
- Ação Oposta (DBT): Uma das habilidades mais poderosas de regulação emocional. Se a emoção (ex: raiva) lhe dá o impulso de atacar (a EI), faça o oposto: afaste-se gentilmente. Se a emoção (ex: tristeza) lhe dá o impulso de se isolar, faça o oposto: conecte-se (ligue para um amigo).
Conclusão: Recuperando a Agência sobre o Tempo
O drama da DESR no TDAH é que ela cria um abismo entre quem queremos ser (calmos, justos, amorosos) e o que a nossa neurobiologia nos impulsiona a fazer (a EI) no momento da tempestade. A desregulação emocional não é uma sentença. É um sintoma. E, como sintoma, pode ser compreendido, gerenciado e tratado. O tratamento — seja com medicação, psicoeducação, TCC ou DBT — não visa criar uma pessoa sem emoções. Visa devolver a agência: a capacidade de sentir a onda da emoção sem ser afogado por ela, permitindo que, no final, sejam nossos valores, e não nossos impulsos, que ditem o curso da nossa vida.
Referências
- Barkley RA. ADHD and the nature of self-control. New York: Guilford Press; 1997.
- Barkley RA. Behavioral inhibition, sustained attention, and executive functions: constructing a unifying theory of ADHD. Psychol Bull. 1997 Jan;121(1):65-94.
- Barkley RA. ADHD, Executive Functioning, and Self-Regulation [Factsheet]. Russellbarkley.org; [acesso em 2025 Nov 15].
- Children and Adults with Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (CHADD). Executive Function Skills.[acesso em 2025 Nov 15].
- Surman CBH, Biederman J, Spencer T, Miller CA, McDermott KM, Faraone SV. Understanding deficient emotional self-regulation in adults with attention deficit hyperactivity disorder: a controlled study. Atten Defic Hyperact Disord. 2013 Sep;5(3):273-81.
- Shaw P, Stringaris A, Nigg J, Leibenluft E. Emotion dysregulation in attention deficit hyperactivity disorder. Am J Psychiatry. 2014 Mar;171(3):276-93.
Texto de Autoria do Dr. Rodrigo Nogueira Borghi
Médico Psiquiatra
CRM-SP:138816 RQE: 34637
