Dr. Rodrigo Nogueira Borghi

Médico Psiquiatra | CRM-SP 138816 | RQE 34637

Um dado que precisa sair do papel e entrar no consultório

Quando pensamos em TDAH, pensamos em desatenção, impulsividade, dificuldade de organização. Quando pensamos em autolesão não suicida — os cortes, as queimaduras, os arranhões deliberados —, pensamos em adolescentes com transtorno de personalidade borderline, em depressão grave, em trauma. Raramente conectamos os dois. E é exatamente aí que mora o problema.

Uma metanálise publicada em 2026 no periódico Psychiatry Research — conduzida por pesquisadores brasileiros da Unicamp — reuniu 14 estudos e quase 30.000 participantes para responder a uma pergunta que surpreendentemente ainda não tinha resposta consolidada: qual é a prevalência de autolesão não suicida (NSSI, do inglês Non-Suicidal Self-Injury) em pessoas com TDAH? E quais fatores moderam essa associação?

Os números são contundentes — e deveriam mudar a forma como avaliamos e acompanhamos nossos pacientes.

 

O que o estudo encontrou

A prevalência global de autolesão não suicida entre indivíduos com TDAH foi de 27% — ou seja, aproximadamente 1 em cada 4 pessoas com TDAH já se autolesionou deliberadamente sem intenção suicida. Esse número se manteve estável entre adolescentes (28%) e adultos (25%), sugerindo que o risco não diminui com a idade — ele persiste ao longo da vida.

Quando comparados a indivíduos sem TDAH, aqueles com o transtorno apresentaram o dobro da chance de engajar em autolesão não suicida (OR = 2,26; IC 95%: 1,69–3,00). Não se trata de uma associação marginal — é um risco robusto, estatisticamente significativo e clinicamente relevante.

Mas o dado mais impactante veio da análise estratificada por sexo: mulheres com TDAH tiveram uma chance 4 vezes maior de se autolesionar do que homens com TDAH (OR = 4,07; IC 95%: 3,09–5,36). Quatro vezes. Esse número, por si só, já justificaria uma mudança na forma como rastreamos autolesão em meninas e mulheres com TDAH.

 

Por que o TDAH aumenta o risco de autolesão?

Para quem trabalha com TDAH no dia a dia, a conexão faz sentido clínico — mas vale explicitar os mecanismos que provavelmente sustentam essa associação.

Desregulação emocional. A dificuldade em modular a intensidade e a duração das emoções é um dos aspectos mais incapacitantes do TDAH — e um dos menos reconhecidos nos critérios diagnósticos formais. Pacientes com TDAH frequentemente descrevem emoções que chegam ‘de uma vez’, com intensidade desproporcional e sem os recursos internos para administrá-las. A autolesão pode funcionar como uma estratégia de regulação emocional primitiva: um alívio rápido, concreto e previsível para um sofrimento que parece insuportável.

Impulsividade. O TDAH compromete a capacidade de inibir respostas automáticas. Em momentos de dor emocional aguda, a distância entre o impulso e o ato é encurtada. A pessoa não ‘decide’ se machucar — ela age antes de ter tempo de considerar alternativas. Esse mecanismo é particularmente relevante na adolescência, quando o córtex pré-frontal ainda está em maturação.

Comorbidades. O TDAH raramente anda sozinho. Depressão, ansiedade, transtornos de conduta, abuso de substâncias — todas essas condições comórbidas elevam independentemente o risco de autolesão. E estudos anteriores já demonstraram que a relação entre TDAH e NSSI pode ser parcialmente mediada por essas comorbidades, especialmente os transtornos afetivos.

Rejeição e fracasso acumulados. Pessoas com TDAH carregam, em média, uma história mais longa de fracassos escolares, rupturas relacionais, críticas constantes e baixa autoestima. Esse acúmulo de experiências adversas — muitas vezes começando na infância — cria um terreno fértil para a autolesão como resposta ao sofrimento crônico.

 

O dado de sexo: por que mulheres com TDAH estão em risco especial?

A diferença de quatro vezes entre mulheres e homens com TDAH merece atenção especial — e uma interpretação cuidadosa.

Primeiro, é importante reconhecer que a autolesão não suicida já é mais prevalente em mulheres na população geral, especialmente na adolescência. Mas a magnitude da diferença dentro da população com TDAH sugere que há algo específico na interseção entre ser mulher e ter TDAH que amplifica o risco.

Meninas e mulheres com TDAH são diagnosticadas mais tarde, apresentam mais frequentemente o subtipo predominantemente desatento (menos visível externamente), e tendem a internalizar o sofrimento — desenvolvendo ansiedade, depressão e autocrítica intensa em vez dos comportamentos externalizantes mais típicos nos meninos. Essa trajetória de internalização, somada ao atraso diagnóstico e à ausência de intervenção adequada, pode explicar por que, quando a autolesão surge, ela já faz parte de um ciclo bem estabelecido de sofrimento silencioso.

Há ainda uma questão de detecção: meninas que se cortam em locais encobertos pela roupa podem passar anos sem que ninguém perceba — especialmente se o foco clínico estiver nos sintomas ‘clássicos’ de TDAH, que muitas vezes não correspondem à apresentação feminina do transtorno.

 

O risco não desaparece na vida adulta

Um dos achados mais importantes desta metanálise é a estabilidade da prevalência entre adolescentes (28%) e adultos (25%). Isso desafia a noção de que a autolesão é um ‘problema de adolescente’ que se resolve com a maturidade.

Em adultos com TDAH, a autolesão pode assumir formas menos reconhecidas — e menos perguntadas. Além dos cortes e queimaduras, comportamentos como arrancar pele, morder-se repetidamente, bater a cabeça ou os punhos contra superfícies duras podem não ser identificados como NSSI pelo próprio paciente ou pelo clínico. A pergunta precisa ser feita — e feita com sensibilidade e sem julgamento.

Adultos com TDAH que se autolesionam frequentemente carregam décadas de desregulação emocional não tratada, comorbidades acumuladas e estratégias de enfrentamento mal-adaptativas que se cristalizaram ao longo do tempo. O tratamento adequado do TDAH — incluindo farmacoterapia e intervenções voltadas para regulação emocional — pode ser um fator protetor, embora essa hipótese ainda precise de mais evidência prospectiva.

 

O que isso muda na prática clínica

Esta metanálise tem implicações diretas para quem atende pacientes com TDAH:

Rastrear ativamente. A autolesão não suicida deve ser perguntada de forma rotineira na avaliação de todo paciente com TDAH — adolescente ou adulto. Não espere que o paciente traga o assunto espontaneamente. Muitos sentem vergonha, medo de julgamento ou simplesmente não associam o comportamento ao transtorno.

Atenção redobrada nas mulheres. O risco quatro vezes maior em mulheres com TDAH exige uma postura clínica proativa. Pergunte diretamente. Examine. Considere a possibilidade de NSSI mesmo na ausência de queixas espontâneas — especialmente em pacientes com perfil internalizante, histórico de diagnóstico tardio ou comorbidade afetiva.

Tratar a desregulação emocional. Se a desregulação emocional é uma das vias centrais entre TDAH e autolesão, ela precisa ser alvo de tratamento — não apenas um ‘sintoma associado’ que se espera melhorar indiretamente. Intervenções que trabalhem habilidades de regulação emocional, como a terapia comportamental dialética (DBT) adaptada, podem ser particularmente úteis nessa população.

Não normalizar, não dramatizar. A autolesão em pacientes com TDAH não é ‘manipulação’, ‘chamada de atenção’ ou ‘fase’. É um sinal de sofrimento que precisa ser acolhido e tratado com a mesma seriedade que dispensamos a qualquer outro comportamento de risco.

 

Para pacientes e famílias

Se você tem TDAH e já se machucou de propósito — ou conhece alguém que se machuca —, saiba que você não está sozinho. Os dados mostram que essa é uma experiência mais comum do que se imagina entre pessoas com TDAH, e que existem explicações neurobiológicas e emocionais para isso. Não é fraqueza. Não é ‘frescura’. É uma forma de lidar com uma dor que parece insuportável.

Mas existem formas melhores de lidar com essa dor — e profissionais que podem ajudar. Se você se identifica com esse tema, converse com seu psiquiatra ou psicólogo. O primeiro passo é falar sobre isso.

Para familiares: fiquem atentos a sinais como o uso constante de roupas de manga longa (mesmo no calor), marcas inexplicadas nos braços ou pernas, isolamento social e mudanças bruscas de humor. Abordem o assunto com acolhimento, não com acusação. A pessoa que se autolesiona precisa de apoio, não de repreensão.

 

Uma nota sobre as limitações

É importante contextualizar os achados com rigor. A metanálise incluiu 14 estudos — um número razoável, mas ainda limitado. A heterogeneidade entre os estudos foi alta, o que é esperado dada a diversidade de populações, instrumentos e definições de NSSI utilizados. A análise estratificada por sexo, embora robusta em termos de tamanho de efeito, baseou-se em apenas três estudos elegíveis — o que exige cautela na generalização. Além disso, a maioria dos estudos incluídos teve delineamento transversal, o que impede conclusões sobre causalidade ou direção temporal da associação.

Dito isso, a direção e a magnitude dos achados são consistentes com o que a literatura prévia já sugeria — e oferecem a primeira estimativa quantitativa consolidada de uma associação clinicamente importante e até agora subestimada.

 

Conclusão

A autolesão não suicida é uma realidade frequente e subdiagnosticada entre pessoas com TDAH. Cerca de 1 em cada 4 indivíduos com o transtorno já se autolesionou. O risco é o dobro em relação à população sem TDAH — e quatro vezes maior em mulheres com TDAH em comparação aos homens.

Este estudo, conduzido por um grupo brasileiro, coloca o Brasil no mapa da pesquisa sobre um tema negligenciado na interface entre TDAH e comportamento autolesivo. E reforça uma mensagem que deveria ser óbvia, mas infelizmente ainda não é: cuidar de TDAH é também cuidar de segurança. A pergunta sobre autolesão precisa entrar no roteiro de toda avaliação e de todo acompanhamento — porque quando não perguntamos, a resposta que recebemos é o silêncio.

 

Referência

Smaniotto, L., Tolentino, A., Barros, F. M. R., Barreto, E., Colnaghi, B., Ker, L., Celeri, E. H. R. V., Della-Torre, O., & Azevedo, R. C. S. (2026). Non-suicidal self-injury in individuals with attention-deficit/hyperactivity disorder: A systematic review and Meta-analysis with Age- and Sex-stratified findings. Psychiatry Research, 358, 116975. https://doi.org/10.1016/j.psychres.2026.116975