Dr. Rodrigo Nogueira Borghi

Médico Psiquiatra | CRM-SP 138816 | RQE 34637

Quando o cérebro é agredido antes mesmo de sair do berçário

Crises epilépticas no período neonatal são a manifestação neurológica mais comum dessa fase. Afetam entre 1 e 3 a cada 1.000 recém-nascidos a termo e até 14 a cada 1.000 prematuros. Na imensa maioria dos casos, essas crises são provocadas por eventos agudos: encefalopatia hipóxico-isquêmica (a famosa ‘falta de oxigênio ao nascer’), hemorragias cerebrais, infartos cerebrais ou malformações congênitas.

O que se sabe há décadas é que essas crises neonatais carregam risco de epilepsia futura. Mas a pergunta menos estudada, e clinicamente mais abrangente é: o que acontece com o neurodesenvolvimento dessas crianças ao longo dos anos? Elas têm mais risco de TDAH? De autismo? De deficiência intelectual?

Um estudo sueco publicado em 2026 no periódico Neuroepidemiology traz respostas sólidas para essas perguntas. Westergren e colaboradores, do Karolinska Institutet, conduziram um estudo de coorte nacional de base populacional, usando cinco registros nacionais de saúde da Suécia, com mais de 6.000 crianças acompanhadas por uma mediana de 7 anos. E os resultados são um lembrete importante de que o TDAH pode ter raízes muito precoces, às vezes, nos primeiros dias de vida.

 

O desenho do estudo: por que ele é tão robusto

Antes de falar nos números, vale entender por que este estudo merece atenção. A Suécia dispõe de um sistema de registros nacionais de saúde com cobertura quase universal e qualidade de dados reconhecida internacionalmente. Os pesquisadores cruzaram dados de cinco registros: o Registro Sueco de Qualidade Neonatal, o Registro Nacional de Nascimentos, o Registro Nacional de Pacientes, o Registro de Causas de Óbito e o Registro Nacional de Medicamentos Prescritos.

Ponto crucial: apenas crises neonatais confirmadas por EEG ou EEG de amplitude integrada (aEEG) foram incluídas. Isso é fundamental, porque sintomas neonatais podem ser facilmente confundidos com crises epilépticas. O diagnóstico utilizado (P90.9A no CID-10 sueco) foi previamente validado com um valor preditivo positivo de 90%. Ou seja, a exposição estudada é de alta qualidade diagnóstica; algo raro na literatura sobre crises neonatais.

Foram identificadas 1.062 crianças com crises neonatais verificadas por EEG, pareadas com 5.310 controles por ano de nascimento, sexo e idade gestacional, numa proporção de 1:5. O acompanhamento se estendeu de 2009 a 2021.

 

Os números: quanto o risco aumenta

Os achados são inequívocos. Comparadas aos controles, as crianças que tiveram crises neonatais apresentaram risco significativamente aumentado para todos os desfechos neurológicos estudados:

Paralisia cerebral: o maior risco de todos. Aos 10 anos, a incidência cumulativa foi de 21,9% nas crianças com crises neonatais versus 0,42% nos controles — um hazard ratio ajustado de 42,6. Ou seja, o risco de paralisia cerebral foi mais de 40 vezes maior.

Deficiência intelectual: incidência cumulativa de 14,7% aos 10 anos no grupo exposto versus 0,92% nos controles (HR ajustado = 18,9). Quase 19 vezes mais risco. Entre as crianças com DI, predominaram os casos graves e não especificados.

Atraso do desenvolvimento: HR ajustado de 11,5, com a maioria dos diagnósticos surgindo nos primeiros 2 anos de vida, como esperado clinicamente.

Autismo: incidência cumulativa de 4,03% aos 10 anos no grupo exposto versus 1,61% nos controles (HR ajustado = 3,0). Risco triplicado.

TDAH: incidência cumulativa de 4,56% aos 10 anos no grupo exposto versus 2,35% nos controles (HR ajustado = 2,1). O risco dobrou. Nenhuma criança recebeu prescrição de medicamento antes dos 7 anos, e o metilfenidato foi o fármaco mais prescrito, seguido pela guanfacina.

 

TDAH após crises neonatais: o que a neurobiologia pode nos dizer

O achado de risco duplicado de TDAH após crises neonatais não surpreende quem pensa em termos de circuitos. As crises neonatais, e, mais importante, as etiologias que as causam, produzem lesões ou disfunções em regiões cerebrais críticas para o desenvolvimento de funções executivas, atenção e regulação comportamental.

A encefalopatia hipóxico-isquêmica, que foi a etiologia mais frequente no estudo, afeta preferencialmente os gânglios da base, o tálamo e o córtex perirolândico, estruturas que integram circuitos fronto-estriatais e tálamo-corticais fundamentais para a atenção sustentada e o controle inibitório. O infarto cerebral neonatal, que foi a etiologia mais associada ao TDAH neste estudo (32% dos casos de TDAH tinham essa etiologia), pode produzir lesões focais que interrompem vias dopaminérgicas e noradrenérgicas em desenvolvimento.

É importante ressaltar: este estudo não pode separar o efeito das crises per se do efeito da etiologia subjacente. As crises neonatais são, na maioria dos casos, um marcador de lesão cerebral, e é provável que grande parte do risco de TDAH derive da lesão que causou as crises, não das crises em si. Mas há evidência crescente de que crises prolongadas e recorrentes no período neonatal podem causar dano adicional ao cérebro imaturo, contribuindo para desfechos piores.

 

Um dado curioso: quase todos com TDAH receberam medicação

Os autores fazem uma observação interessante: praticamente todas as crianças diagnosticadas com TDAH no grupo de crises neonatais estavam em uso de medicação, apenas duas exceções. Os próprios pesquisadores notam que isso pode indicar que os casos de TDAH nessa população tendem a ser de gravidade moderada a severa. Mas também levantam a possibilidade de prescrição elevada de medicamentos para TDAH na Suécia.

Do ponto de vista clínico, é plausível que o TDAH que emerge após lesão cerebral precoce tenda a ser mais grave e mais refratário do que o TDAH ‘primário’ de base genética. Essas crianças frequentemente apresentam múltiplas comorbidades neurológicas — paralisia cerebral, deficiência intelectual, epilepsia, que complicam tanto o diagnóstico quanto o manejo do TDAH. É um cenário de alta complexidade clínica, que demanda equipes multidisciplinares e acompanhamento longitudinal.

 

Limitações importantes e honestas

O estudo é exemplar em reconhecer suas limitações. A principal é o viés de detecção: crianças que tiveram crises neonatais são acompanhadas em programas de follow-up estruturados, enquanto os controles seguem o acompanhamento pediátrico habitual. Isso significa que desvios do desenvolvimento podem ser detectados mais frequentemente no grupo exposto simplesmente porque alguém está olhando mais de perto. Esse viés pode inflar os hazard ratios, especialmente para desfechos como TDAH e autismo, cujo diagnóstico depende fortemente de avaliação clínica ativa.

Além disso, variáveis importantes como carga de crises (quantidade, duração, tipo), fatores genéticos e condições socioeconômicas não puderam ser incluídas no modelo. E os dados sobre etiologia estavam disponíveis apenas para o grupo exposto, impedindo uma análise comparativa direta do impacto de cada etiologia sobre o risco de TDAH.

Apesar dessas limitações, o tamanho amostral, a verificação por EEG, o pareamento por idade gestacional e sexo, e o seguimento de base populacional fazem deste um dos estudos mais robustos já publicados sobre o tema.

 

Para pacientes e famílias: o que é importante saber

Se o seu filho teve crises convulsivas nos primeiros dias de vida, este estudo reforça a importância de um acompanhamento de longo prazo do neurodesenvolvimento, não apenas nos primeiros anos, mas ao longo de toda a infância.

O TDAH pode ser uma das consequências. Aos 10 anos, cerca de 1 em cada 22 crianças que tiveram crises neonatais tinha sido diagnosticada com TDAH. Isso é o dobro do esperado em crianças sem esse histórico. O diagnóstico pode demorar para aparecer — nenhuma criança neste estudo recebeu o diagnóstico antes dos 7 anos, por isso é fundamental que o acompanhamento não se encerre cedo demais.

Outros desfechos neurológicos também merecem atenção. A deficiência intelectual, o atraso do desenvolvimento, o autismo e a paralisia cerebral são todos mais frequentes nessa população. Um acompanhamento abrangente, com avaliações periódicas do desenvolvimento motor, cognitivo, da linguagem e do comportamento, é a melhor estratégia para identificar precocemente qualquer desvio e iniciar as intervenções necessárias.

Ter tido crises neonatais não é uma sentença. Neste estudo, 73,4% das crianças que tiveram crises neonatais não apresentaram nenhum dos desfechos neurológicos estudados ao longo do acompanhamento. A maioria evolui bem. Mas a vigilância é necessária, porque a detecção precoce faz diferença real na qualidade de vida da criança e da família.

 

Conclusão

O estudo de Westergren e colaboradores acrescenta um nível importante de evidência sobre a trajetória neurológica de crianças que tiveram crises epilépticas confirmadas por EEG no período neonatal. O risco aumentado de TDAH, embora menor em magnitude do que o de paralisia cerebral ou deficiência intelectual, é clinicamente relevante e reforça a necessidade de programas de follow-up que incluam avaliação neuropsiquiátrica, e não apenas neurológica, dessas crianças.

Para o psiquiatra que recebe uma criança com TDAH no consultório, vale sempre a pergunta: houve intercorrências perinatais? Crises neonatais, encefalopatia hipóxico-isquêmica, hemorragia ou infarto cerebral perinatal são informações que podem mudar a compreensão do quadro, o prognóstico e a estratégia terapêutica. O TDAH que tenha uma lesão neuronal como etiologia, pode ter um perfil diferente potencialmente mais grave, mais comórbido e mais desafiador de tratar.

E para quem trabalha em neonatologia e neuropediatria, o recado é claro: o acompanhamento dessas crianças precisa ir além da epilepsia. O TDAH e o autismo são desfechos reais, mensuráveis e tratáveis, desde que alguém esteja procurando.

 

Referência

Westergren, H., Marell Hesla, H., Altman, M., & Wickström, R. (2026). Neurological outcomes beyond epilepsy following electroencephalographically verified neonatal seizures: A Swedish nationwide cohort study. Neuroepidemiology. https://doi.org/10.1159/000551055