Dr. Rodrigo Nogueira Borghi
Médico Psiquiatra | CRM-SP 138816 | RQE 34637
A manchete que assustou milhões de famílias
Em 19 de novembro de 2025, o Wall Street Journal — um dos jornais de maior circulação e prestígio dos Estados Unidos — publicou uma reportagem com um título impossível de ignorar: ‘Millions of Kids Are on ADHD Pills. For Many, It’s the Start of a Drug Cascade’ (Milhões de Crianças Estão Tomando Pílulas para TDAH. Para Muitas, É o Início de uma Cascata de Remédios). A matéria, assinada por Shalini Ramachandran, Betsy McKay e Tom McGinty, ocupou a primeira página e rapidamente se tornou assunto em redes sociais, grupos de pais e consultórios.
A reportagem abria com a história de Danielle Gansky, diagnosticada com TDAH aos 7 anos depois que a escola sinalizou problemas de atenção. Ao longo de vinte anos, segundo a matéria, Danielle passou por 14 medicamentos psiquiátricos diferentes. Aos 29 anos, ainda tentava desmamar antidepressivos e descrevia a sensação de viver em um corpo ‘sequestrado pela medicação’. Uma história pesada, emocional e verdadeira — o tipo de narrativa que prende o leitor e não sai mais da cabeça.
A partir desse relato pessoal, os jornalistas apresentaram o que chamaram de ‘análise’ de dados do Medicaid americano entre 2019 e 2023. Compararam cerca de 166 mil crianças entre 3 e 14 anos que iniciaram medicação para TDAH em 2019 com crianças que não iniciaram. O achado principal: as crianças que começaram a tomar medicação para TDAH tinham mais de cinco vezes a chance de estar usando medicações psiquiátricas adicionais quatro anos depois. Segundo a reportagem, apenas 37% tinham registro de terapia comportamental antes de receber a primeira prescrição. A conclusão implícita — e muitas vezes explícita — era clara: começar a tratar TDAH com medicação colocaria a criança em uma ‘esteira’ perigosa que levaria a antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores de humor.
O impacto da matéria foi imediato. Pais começaram a questionar médicos. Escolas reacenderam o debate sobre medicalização. Grupos anti-medicação encontraram munição perfeita para suas cruzadas. E, como era de se esperar, muitas famílias ficaram simplesmente com medo — medo de seguir o tratamento, medo de procurar ajuda, medo de confiar em quem prescreve.
Mas aí vem a pergunta que este artigo quer fazer: o que o Wall Street Journal publicou foi ciência ou jornalismo disfarçado de ciência?
Quem respondeu com precisão cirúrgica a essa pergunta foi o professor Stephen V. Faraone, um dos maiores pesquisadores em TDAH do mundo, em um texto publicado no blog do ADHD Evidence Project. E a análise dele merece ser destrinchada — porque ensina algo muito maior do que apenas corrigir uma reportagem: ensina a ler ciência.
Jornalismo não é ciência — e isso importa muito
A primeira e mais importante observação de Faraone é aparentemente óbvia, mas profundamente negligenciada no debate público: o Wall Street Journal não publicou um estudo científico. Publicou uma reportagem investigativa que analisou um banco de dados. Isso não é a mesma coisa. Não chega nem perto de ser a mesma coisa.
Jornalismo e ciência obedecem a lógicas completamente diferentes de validação. Uma reportagem jornalística é revisada por editores e checadores de fatos, cujas perguntas são: o fato está basicamente correto? Estamos sendo justos? Estamos evitando problemas legais? São perguntas legítimas e importantes — mas editores, por mais competentes que sejam, não têm treinamento para avaliar métodos de análise de dados, correção por variáveis de confusão, definições operacionais de diagnóstico ou inferência causal.
Um estudo científico, por outro lado, passa por revisão por pares. Isso significa que especialistas independentes. que não têm nenhuma relação com os autores, recebem o manuscrito e fazem perguntas técnicas difíceis: Como exatamente vocês definiram TDAH? Como lidaram com dados faltantes? Como ajustaram para variáveis de confusão? Confundiram correlação com causalidade? Se os autores não respondem adequadamente, o artigo é rejeitado. Esse processo é lento, chato e muitas vezes frustrante — mas é o que separa a ciência que podemos usar da ciência que podemos publicar no Instagram.
A reportagem do WSJ tem a aparência de ciência. Tem números. Tem comparações. Tem porcentagens. Tem uma base de dados grande. Mas tem a metodologia da ciência? Não tem. E é exatamente essa a armadilha que Faraone denuncia: ‘Jornalismo se fazendo passar por ciência é tanto mau jornalismo quanto má ciência’.
A confusão fundamental: correlação não é causalidade
O erro técnico mais grave da reportagem é tão básico que seria reprovado em qualquer aula introdutória de epidemiologia: confundir correlação com causalidade. Faraone aponta isso com clareza.
O raciocínio implícito da reportagem funciona mais ou menos assim: a criança começa a medicação para TDAH; quatro anos depois, muitas dessas crianças estão tomando outras medicações psiquiátricas, logo, a medicação para TDAH causa o uso posterior de outros remédios. Esse encadeamento é sedutor, tem uma narrativa clara, encaixa direitinho numa manchete, mas é logicamente falho.
Correlação significa apenas que dois eventos ocorrem juntos com frequência maior do que o acaso. Causalidade significa que um evento produz o outro. E entre uma coisa e outra existe um abismo chamado confundidores, variáveis que explicam a associação observada sem que haja qualquer relação causal direta entre A e B.
No caso específico da reportagem do WSJ, existem várias explicações alternativas muito mais plausíveis do que ‘a medicação para TDAH causa cascata de remédios’. A literatura científica é absolutamente clara sobre isso: crianças e adolescentes com TDAH têm risco significativamente aumentado de desenvolver transtornos de ansiedade, depressão, transtornos de conduta, transtornos do sono e uso de substâncias ao longo da vida. Isso não é uma consequência da medicação — é uma consequência do próprio TDAH. As comorbidades psiquiátricas em TDAH não são exceção; são a regra.
Ou seja: crianças que começam a ser tratadas para TDAH frequentemente são as que apresentam quadros mais graves, mais comórbidos, mais complexos. Quando, quatro anos depois, essas mesmas crianças estão em uso de antidepressivos ou outros medicamentos, a interpretação cientificamente honesta é que a comorbidade apareceu — não que o metilfenidato ‘causou’ depressão.
Um artigo submetido a uma revista científica com revisão por pares jamais passaria sem ajustar a análise para diagnósticos comórbidos, gravidade do quadro, status socioeconômico e histórico familiar. Mas o banco de dados que o WSJ usou, registros administrativos do Medicaid, não permite fazer esses ajustes adequadamente. E, como Faraone destaca, quando não é possível fazer esses ajustes, um periódico científico sério simplesmente não permitiria que os autores fizessem afirmações causais fortes. A reportagem fez.
A amostra também não é o que parece
Há um detalhe adicional que amplifica o problema: os dados analisados vieram do Medicaid — o sistema público de saúde americano voltado para populações de baixa renda. A própria CHADD (Children and Adults with Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder), a principal organização de apoio a pessoas com TDAH nos Estados Unidos, publicou uma resposta à reportagem apontando esse fator como decisivo.
Crianças atendidas pelo Medicaid apresentam, de forma desproporcional, taxas mais altas de trauma, pobreza, envolvimento com serviços de proteção à criança, instabilidade familiar, exposição a adversidades precoces e quadros psiquiátricos complexos. Essas são todas variáveis que, por si só, estão associadas à polifarmácia — independentemente de qualquer tratamento para TDAH. Generalizar achados de uma amostra de alto risco como se representassem toda a população pediátrica com TDAH é um erro metodológico grave.
Em termos epidemiológicos, isso se chama viés de seleção: a amostra estudada não representa a população sobre a qual se quer fazer afirmações. Um estudo científico rigoroso precisaria ou restringir suas conclusões ao grupo estudado (crianças do Medicaid, com maior carga de adversidade), ou tentar generalizar com cautela e múltiplas ressalvas metodológicas. A reportagem fez o oposto: pegou dados de uma população específica e de alto risco e apresentou como se fossem uma fotografia do que acontece com ‘milhões de crianças’ em geral.
O poder tóxico da história individual
Voltemos à Danielle Gansky, a menina que abre a reportagem. A história dela é real. É dolorosa. É importante. E merece ser ouvida com seriedade. Ninguém está minimizando o sofrimento de ninguém.
Mas aqui entra outro princípio fundamental da literacia científica que Faraone destaca: histórias poderosas não são dados representativos. Histórias individuais, no jargão técnico, são a forma mais fraca de evidência. Elas podem levantar questões legítimas e inspirar pesquisas futuras — mas não podem sustentar conclusões sobre como a maioria dos pacientes experimenta um tratamento.
Há um viés cognitivo bem documentado aqui: quando lemos uma história emocional e vívida, nosso cérebro tende a tratá-la como representativa, mesmo quando ela descreve um evento raro. É por isso que um acidente de avião fica por semanas no noticiário enquanto milhares de acidentes de carro passam despercebidos — embora a chance de morrer em um carro seja muitíssimo maior. Os jornalistas sabem disso. E, deliberadamente ou não, usam histórias individuais para criar a ilusão de que o particular é o geral.
A reportagem do WSJ traz relatos dolorosos de crianças que pareceram ser prejudicadas pela medicação. O que ela não traz são os relatos, que existem aos milhares, de crianças cujas vidas foram transformadas positivamente pelo tratamento medicamentoso adequado. Não traz a mãe que, depois de anos vendo o filho ser expulso de escolas, finalmente consegue ver a criança feliz, aprendendo, fazendo amigos. Não traz o adolescente que parou de pensar em suicídio depois que começou o tratamento. Não traz o adulto que finalmente conseguiu terminar a faculdade. Essas histórias também são reais. E numericamente, são infinitamente mais comuns do que a de Danielle.
A apresentação unilateral de histórias trágicas, sem contrapeso, não é jornalismo neutro, é construção narrativa com um objetivo editorial. E tem consequências: pais que decidem não tratar, adolescentes que abandonam a medicação, médicos que hesitam em prescrever. O custo humano dessa hesitação raramente aparece nas manchetes.
O que a reportagem acerta e que não deve ser descartado
Seria injusto. e cientificamente pobre, descartar a matéria inteira. Faraone faz questão de reconhecer os pontos em que a reportagem levanta preocupações legítimas, e aqui precisamos fazer o mesmo.
É verdade que algumas crianças com TDAH acabam em uso de múltiplas medicações psiquiátricas. É verdade que o uso de antipsicóticos em crianças exige justificativa cuidadosa e monitoramento rigoroso — essas são drogas com efeitos adversos significativos e que nunca devem ser prescritas levianamente. É verdade que o acesso a terapia de qualidade, avaliação cuidadosa e acompanhamento longitudinal é insuficiente, especialmente para famílias de baixa renda. É verdade que existem prescritores pouco treinados e pouco criteriosos. É verdade que algumas prescrições são feitas sem reavaliação periódica, sem tentativas de desmame, sem um plano terapêutico claro.
Esses são problemas reais, e merecem ser enfrentados. Mas enfrentá-los exige mais ciência, não menos. Exige políticas públicas que garantam acesso a terapia comportamental baseada em evidências, formação adequada de prescritores, tempo de consulta suficiente para avaliação complexa, e acompanhamento longitudinal de qualidade. Não exige assustar famílias com manchetes clickbait que sugerem que a medicação para TDAH, em si, é a vilã da história.
A lição maior: como ler notícias sobre saúde mental
O caso da reportagem do WSJ é um exemplo raro e valioso, porque permite ensinar literacia científica usando um episódio concreto. Se você quiser sair daqui com ferramentas práticas para avaliar qualquer notícia sobre TDAH, saúde mental ou medicina que aparecer no seu feed amanhã, estas são as perguntas que deve fazer:
- O que está sendo afirmado é um estudo científico ou uma reportagem? Se é reportagem, por mais sofisticada que seja a análise, ela não passou por revisão por pares e não deve ser tratada como evidência científica. Pode ser útil como ponto de partida, jamais como prova.
- A conclusão é causal ou apenas correlacional? Quando você ler ‘A está associado a B’, pergunte-se: existe alguma outra variável C que poderia explicar essa associação? Se a resposta for sim, e quase sempre é, a conclusão causal é fraca.
- A amostra representa a população sobre a qual se está generalizando? Dados de uma população específica (Medicaid, um único hospital, um único país) nem sempre podem ser generalizados para ‘todas as crianças’.
- As histórias individuais estão sendo usadas como ilustração ou como prova? Histórias são poderosas mas frágeis como evidência. Desconfie de qualquer argumento que se sustente principalmente em anedotas emocionais.
- A reportagem apresenta contraponto? Uma matéria que apresenta apenas um lado do debate, ignorando evidências em sentido contrário e vozes qualificadas discordantes, deve ser lida com cautela redobrada.
- O título é sensacionalista? Manchetes com palavras como ‘cascata’, ‘epidemia’, ‘perigoso’, ‘milhões’ quase sempre indicam que o conteúdo foi editado para gerar cliques, não para informar com precisão. Isso não significa automaticamente que o conteúdo é falso, mas significa que precisa ser lido com um filtro a mais.
Para pacientes e famílias: o que fazer com isso tudo
Se você é pai, mãe ou paciente, e leu a matéria do WSJ (ou qualquer coisa parecida) e ficou assustado, a primeira coisa a fazer é respirar. A segunda é conversar com o profissional que acompanha você ou seu filho, sem deixar que o medo dite decisões.
O tratamento do TDAH baseado em evidência funciona e salva vidas. Isso não é opinião, é o que décadas de estudos rigorosos, publicados em periódicos de alto impacto, demonstraram. Os estimulantes estão entre as medicações com maior tamanho de efeito em toda a psiquiatria. Reduzem sintomas nucleares, melhoram desempenho escolar, reduzem risco de acidentes, diminuem taxas de uso de substâncias, reduzem mortalidade por causas não naturais. Isso não significa que a medicação seja para todos, nem que deva ser a primeira escolha em todas as idades — mas significa que ela é uma ferramenta legítima, bem estudada e, muitas vezes, a mais eficaz disponível.
O uso de múltiplas medicações em uma criança precisa de justificativa clara. Se o seu filho está usando mais de uma medicação psiquiátrica, você tem todo o direito de perguntar ao médico: por quê? Qual o objetivo de cada uma? Quando vamos reavaliar? Qual o plano para tentar reduzir? Um bom prescritor responderá essas perguntas com naturalidade, porque elas fazem parte da boa prática clínica.
Não confunda vigilância com medo. Estar atento aos efeitos do tratamento, relatar dúvidas, pedir esclarecimentos — tudo isso é saudável e desejável. Abandonar um tratamento que funciona por causa de uma manchete assustadora, por outro lado, pode ter consequências sérias.
Procure fontes de informação confiáveis. Sites como o ADHD Evidence Project (do professor Faraone), a própria ABDA, publicações da CHADD, do World Federation of ADHD e de sociedades médicas são muito mais confiáveis do que reportagens sensacionalistas ou vídeos virais no TikTok.
Conclusão: o preço da desinformação
A reportagem do Wall Street Journal é um estudo de caso perfeito sobre por que a literacia científica importa. Os jornalistas fizeram o que jornalistas fazem: procuraram uma história, analisaram dados, entrevistaram fontes, construíram uma narrativa envolvente. Isso tem valor jornalístico. Mas o momento em que essa narrativa cruzou a linha — apresentando correlação como causalidade, amostra enviesada como população geral, anedota como dado, ela deixou de informar e passou a desinformar.
E desinformação em saúde mental tem preço. O preço é a família que decide não procurar ajuda porque tem medo de ‘entrar na cascata’. É o adolescente que interrompe a medicação que estava funcionando porque leu uma matéria assustadora. É a criança que continua fracassando na escola, sendo rotulada de preguiçosa ou indisciplinada, enquanto seus pais hesitam diante de uma decisão clínica que poderia mudar sua trajetória de vida. É o pediatra que passa a hesitar em encaminhar para avaliação psiquiátrica. É o professor que reforça o preconceito de que ‘criança com TDAH é criança dopada’.
Como diz Faraone, com precisão cirúrgica: jornalismo se fazendo passar por ciência é tanto mau jornalismo quanto má ciência. Nosso papel, como clínicos, pesquisadores, pacientes e familiares, é aprender a distinguir uma coisa da outra — e proteger, do ruído, as decisões que realmente importam para a vida de quem convive com TDAH.
Ler ciência é uma habilidade. E, como toda habilidade, se desenvolve com prática. Espero que este artigo sirva como um pequeno treino.
Referências
Faraone, S. V. (2025). Here’s What the Wall Street Journal Got Wrong about the Medication Treatment of ADHD Patients: A Lesson in Science Media Literacy. ADHD Evidence Project. Disponível em: https://www.adhdevidence.org/blog/heres-what-the-wall-street-journal-got-wrong-about-the-medication-treatment-of-adhd-patients-a-lesson-in-science-media-literacy
Ramachandran, S., McKay, B., & McGinty, T. (2025, 19 de novembro). Millions of Kids Are on ADHD Pills. For Many, It’s the Start of a Drug Cascade. The Wall Street Journal. Disponível em: https://www.wsj.com/health/wellness/kids-adhd-drugs-medication-06dfa0b7
CHADD. (2025). CHADD Response Regarding the November 2025 Article in The Wall Street Journal. Disponível em: https://chadd.org/chadd-response-regarding-the-november-19-2025-article-in-the-wall-street-journal/
