Dr. Rodrigo Nogueira Borghi
Médico Psiquiatra | CRM-SP 138816 | RQE 34637
‘Hoje em dia todo mundo tem TDAH’
Essa frase tornou-se quase um bordão. Aparece em rodas de conversa, consultórios, redes sociais e até entre profissionais de saúde. Mas o que acontece quando um editorial do British Journal of Psychiatry — assinado por mais de 30 pesquisadores e clínicos de referência internacional — resolve enfrentar essa afirmação de frente, com dados?
O artigo de Cortese e colaboradores (2026), publicado no BJPsych, é uma peça rara: combina rigor epidemiológico com posicionamento clínico e ético. E a conclusão central é inequívoca: não há evidência de que o TDAH esteja sendo sobrediagnosticado no Reino Unido. Na verdade, os dados apontam consistentemente na direção oposta — o subdiagnóstico e o subtratamento.
Esse editorial chega em um momento decisivo: o NHS England convocou uma Taskforce específica para TDAH em resposta ao aumento exponencial da demanda por avaliações. E o debate público, muitas vezes pautado mais por opinião do que por evidência, precisa de um contraponto sólido. É exatamente isso que este artigo oferece.
O que os números realmente dizem
A prevalência de TDAH em crianças e adolescentes, quando avaliada com entrevistas diagnósticas estruturadas baseadas no DSM ou CID, gira em torno de 5,4% globalmente. No Reino Unido, dados da pesquisa nacional de 2017 (NHS Digital) estimaram 3,1% de crianças e adolescentes com TDAH segundo critérios do DSM-5, um número estável desde 1999. Em adultos, a prevalência global estimada é de aproximadamente 3,3%.
Agora, compare com a prevalência administrativa, ou seja, os diagnósticos efetivamente registrados nos serviços de saúde. Em 2018, no Reino Unido, apenas 2,5% dos meninos e 0,7% das meninas tinham diagnóstico registrado. Em adultos, os números são ainda mais baixos: 0,7% em homens e 0,2% em mulheres. Mesmo com o aumento expressivo dos diagnósticos ao longo dos anos (que quadruplicou em meninas e cresceu 20 vezes em homens adultos entre 2000 e 2018), a prevalência administrativa permanece substancialmente abaixo da prevalência populacional.
Traduzindo: mesmo com o aumento de diagnósticos, ainda há mais gente com TDAH sem diagnóstico do que com diagnóstico equivocado. O que cresceu não foi uma epidemia artificial, foi a consciência sobre o transtorno.
Um dado adicional reforça esse ponto: dados inéditos do South London and Maudsley NHS Trust, o maior serviço de saúde mental infantojuvenil do Reino Unido, mostram que 94% das crianças encaminhadas para avaliação receberam confirmação diagnóstica de TDAH. Isso desmente frontalmente a narrativa de que os pais estão inventando ou exagerando sintomas para obter vantagens educacionais.
Sobrediagnóstico, subdiagnóstico ou diagnóstico equivocado?
O editorial faz uma distinção fundamental, muitas vezes ignorada no debate público: sobrediagnóstico não é a mesma coisa que diagnóstico errado. Sobrediagnóstico, em termos epidemiológicos, ocorre quando a prevalência de diagnósticos feitos nos serviços excede a prevalência real baseada em avaliações rigorosas de amostras populacionais. E os dados disponíveis não sustentam isso no Reino Unido.
Mas diagnósticos equivocados existem? Certamente. E os autores são transparentes sobre isso. Casos individuais de diagnóstico errado podem ocorrer por várias razões: avaliações superficiais, falha na exclusão de diagnósticos diferenciais, e pressão do sistema educacional (onde o diagnóstico de TDAH pode garantir tempo extra em provas e adaptações). O artigo reconhece que uma sensibilidade aumentada ao TDAH, embora benéfica para a detecção, pode levar à sobreinterpretação de sintomas em alguns casos.
Três desafios centrais contribuem para o misdiagnóstico:
- Ausência de biomarcadores diagnósticos. O TDAH, assim como a maioria dos transtornos psiquiátricos, depende de avaliação clínica. O QB Test, por exemplo, é recomendado pelo NICE apenas como ferramenta auxiliar, não como teste diagnóstico isolado. Dito isso, os field trials do DSM-5 demonstraram que, quando avaliadores são treinados adequadamente, a confiabilidade do diagnóstico de TDAH está entre as mais altas de todos os transtornos incluídos no manual.
- A dimensionalidade dos sintomas. Os sintomas de TDAH se distribuem ao longo de um contínuo, de modo semelhante à pressão arterial ou à glicemia. Mas assim como hipertensão e diabetes, existem limiares que determinam a necessidade de intervenção. O DSM-5 e a CID-11 exigem que os sintomas causem prejuízo funcional. A questão é que avaliar prejuízo funcional é uma habilidade clínica que requer treinamento, e nem todos os profissionais a dominam.
- A confusão conceitual em torno da neurodiversidade. O editorial levanta um ponto sutil mas importante: os termos ‘neurodiversidade’ e ‘neurodivergência’, originados de um movimento de justiça social, não são categorias diagnósticas. Quando TDAH, autismo e outras condições são agrupados sob esse guarda-chuva sem distinção, a prevalência real de cada transtorno se torna impossível de estimar com precisão.
O custo real do subdiagnóstico e do subtratamento
Enquanto o debate público se concentra na suposta ‘epidemia de diagnósticos’, o editorial redireciona o olhar para o problema que realmente causa sofrimento: as pessoas com TDAH que não recebem o tratamento que precisam.
Uma metanálise citada no artigo mostrou que apenas 1 em cada 5 crianças e adolescentes com TDAH no mundo recebe tratamento medicamentoso. E para cada indivíduo que recebe medicação sem diagnóstico formal, há três pessoas com diagnóstico que poderiam se beneficiar da medicação mas não a recebem.
No Reino Unido, os dados são alarmantes: pesquisas com mais de 7.000 pessoas revelaram que, entre crianças eventualmente diagnosticadas com TDAH, 14% esperaram de 2 a 3 anos e 27% de 1 a 2 anos apenas para serem avaliadas. Para adultos que nunca foram diagnosticados na infância, a situação é ainda pior — os serviços de saúde mental para adultos raramente têm capacitação ou recursos adequados para TDAH, gerando filas crescentes que empurram quem pode pagar para o setor privado.
E o custo de não tratar não é trivial. O TDAH está associado a um risco aumentado de fracasso acadêmico, comportamento suicida, abuso de substâncias, acidentes de trânsito, criminalidade e mortalidade precoce. Estudos recentes com delineamentos quase-experimentais robustos (como emulação de target trials) têm demonstrado que os estimulantes reduzem esses riscos em cenários de mundo real. Negar tratamento eficaz a pessoas com TDAH diagnosticado adequadamente é, como o editorial afirma, uma questão ética urgente.
Tratamento funciona — e bem
O editorial reforça o que a literatura já consolidou: os estimulantes têm os maiores tamanhos de efeito em toda a psiquiatria para o manejo dos sintomas nucleares do TDAH em ensaios de curto prazo. Ensaios de descontinuação confirmam a persistência dos efeitos a longo prazo. E uma metanálise em rede recente confirmou que as medicações também são eficazes em adultos, embora com tamanhos de efeito um pouco menores.
Intervenções não farmacológicas, como treinamento parental comportamental,têm eficácia demonstrada para sintomas associados, como comportamento opositor. A abordagem mais racional é multimodal, combinando tratamento farmacológico e não farmacológico de acordo com o perfil de cada paciente.
Os autores fazem ainda um alerta provocador: quando se discute tratamento com pacientes, o foco costuma recair nos efeitos adversos da medicação. Mas o custo do TDAH não tratado raramente entra na conversa, e deveria.
Um modelo melhor: abordagem estratificada e escalonada
O editorial propõe uma mudança de paradigma no modo como os serviços de saúde organizam o cuidado ao TDAH. Em vez da abordagem ‘tudo ou nada’ — diagnóstico categórico seguido de medicação — os autores defendem um modelo de cuidado escalonado e estratificado por gravidade, similar ao que já se faz com hipertensão, ansiedade e hipercolesterolemia.
Isso implica reconhecer que sintomas subliminares de TDAH, assim como pré-hipertensão ou pré-diabetes, podem causar prejuízo e se beneficiar de suporte, mesmo sem preencher critérios diagnósticos completos. E que os casos graves demandam intervenção imediata e intensiva.
Para que esse modelo funcione, no entanto, é necessário melhorar as definições operacionais de gravidade do TDAH e investir em formação de profissionais — tanto especialistas quanto generalistas, para uma avaliação mais precisa e um diagnóstico diferencial mais rigoroso.
Para pacientes e famílias: o que isso significa na prática
Se você tem TDAH ou convive com alguém que tem, este editorial traz algumas mensagens importantes:
Seu diagnóstico é válido. Os dados mostram que a grande maioria dos diagnósticos de TDAH feitos após avaliação adequada é confirmada. A narrativa de que ‘todo mundo tem TDAH hoje em dia’ não se sustenta diante dos números.
Você merece tratamento. A evidência é clara: tratamentos eficazes existem e fazem diferença real na qualidade de vida, na segurança e nos desfechos de longo prazo. Não aceite a ideia de que TDAH é ‘apenas falta de força de vontade’ ou que medicação é ‘muleta’.
O problema não é excesso de diagnóstico — é falta de acesso. Milhões de pessoas com TDAH ao redor do mundo seguem sem diagnóstico e sem tratamento. As filas nos serviços públicos são longas, os profissionais capacitados são poucos, e a desinformação segue sendo um obstáculo real.
A narrativa do sobrediagnóstico pode ser usada contra você. Os autores fazem um alerta ético: quando se dissemina a ideia de que TDAH é sobrediagnosticado, há um risco concreto de que gestores de saúde e formuladores de políticas usem isso como justificativa para reduzir investimentos em serviços de TDAH, prejudicando exatamente quem mais precisa de ajuda.
Conclusão
O editorial de Cortese e colaboradores é um contraponto necessário a uma narrativa perigosamente simplista. A pergunta ‘O TDAH é sobrediagnosticado?’ exige uma resposta nuançada: não há evidência de sobrediagnóstico populacional, mas diagnósticos equivocados individuais podem ocorrer quando a avaliação é superficial. O verdadeiro problema, o elefante na sala, é que os serviços de saúde são incapazes de atender adequadamente as pessoas que precisam de ajuda.
Em vez de alimentar a polêmica estéril sobre se ‘tem gente demais sendo diagnosticada’, deveríamos estar perguntando: por que tantas pessoas com TDAH ainda não recebem o cuidado que a evidência mostra ser eficaz?
Esse é o debate que realmente importa.
Referência
Cortese, S., Daley, D., Hollis, C., Rae, S., et al. (2026). ADHD (over) diagnosis: fiction, fashion and failure. The British Journal of Psychiatry, 1–4. https://doi.org/10.1192/bjp.2026.10546
